Vergonha e Amigos

Tento hoje voltar a ser um pouco daquilo que eu era antes, mas que quando o era antes nunca, até o momento, desejei o ser.

Eu sinto muita vergonha de tudo o que faço. De você menina, e aquele triste beijo de misericórdia. Muito também de você, outra maria, e minha louca paixão adolescente hoje vista como grande tolice, embora o mundo o fosse, quando era. Vergonha de muita coisa, cansado de tudo isso, inclusive de você, grande amigo agora tão diferente e há muito já ido.

Já te foste faz é tempo e nem fizeste questão de avisar. Eu fui meio que gritando abestalhadamente sozinho, como sempre. Ocorria que antes ainda estava ali, junto com os outros, vocês. Nesses anos todos eu ainda tento fazer sentido em alguma coisa antes de morrer.

Eu vou falhar.

Mas eu quero falhar sem remorso, sem vergonha. Ainda sinto muita vergonha. E hoje percebo que boa parte da minha vergonha decorre do fato de muito amar a todos vocês, incluindo a opinião tosca que cultivam. A gente tá longe faz tempo mesmo, eu preciso me desapegar.

Saco cheio de ter vergonha, fico triste até quando estou feliz.

Amo todos vocês, mas preciso me despedir. Porque ainda me amo mais. Tanto que ainda me envergonho, como o faço agora e como farei por ainda certo tempo. Mas faço meu esforço, não tenho alternativa.

Disse que ia parar de fumar, me faz mal. Mas vou fumar essa carteira toda agora, só porque fumar me envergonha. Quem sabe assim eu e a vergonha fumemos juntos, sejamos amigos e nos aceitemos.

Não quero mais escrever sobre vocês. Por favor, vão embora.

Tchau.

Balbucios

Those thefty
hefty
punky eyes.

Staring at me
punky eyes.

No
never
nunca
ever
jamais.

Glancing at me
punky eyes.

Pinky they are
dopey eyes.

No more
ever
111 ais.

Red
pink
always full of ink
those eyes.

Now full
o' silly water
weeping eyes.

Too much ego
those eyes.

I'm so full of spirit
silly eyes.

Karmic shit
in my body lies.

Can't talk to you
blind eyes.

I'm budha
and don't tell lies.

Silly rhimes
Camões.

You're unhappy
because you have ego
eagle
eyes.

So disturbing my opinion
you eyes.

Forever
ever
happy
jamais.

Live without
for in nothing
there's everything

So budha said
and I repeat
cause in me
silly eyes
a verdade nunca encontrarás.

Na verdade eu minto
eyes.

Pois tu
eyes
Discordante me incomoda.
Teus fracassos se justificam.

There's no hope

Dies.

It's all about me.

Eu me enxergo como uma pessoa contraditória, e vejo que por essa minha contradição algumas pessoas se ofendem, fecham a cara, torcem o olhar. Isso tudo me incomoda muito porque a opinião alheia é sempre importante. Me resta, pelo menos, publicamente confessar isso e valorizar aqueles que se mantém ao meu lado apesar de tudo.

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris.

Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

[...]

Sá Carneiro, Dispersão.

Existir, não crer e temer.

"Quero que se aja e que se alonguem os ofícios da vida tanto quanto possível. E que a morte me encontre plantando meus repolhos, mas descuidado dela e ainda mais de meu jardim imperfeito."

(Michel de Montaigne)

"Quando Platão diz que filosofar é aprender a morrer, quer dizer que a vida não tem importância, que só a morte conta, que só a morte vale. Em Montaigne é o inverso; é a vida que vale. A morte não tem mais importância porque ela dá à vida -- justamente porque ela está voltada à finitude -- sua urgência, sua raridade, seu preço. O senhor sabe o que dirá André Gide, muito mais tarde, Gide, grande leitor e grande admirador de Montaigne: 'Um pensamento da morte não suficientemente constante não deu suficiente valor ao menor instante da vida'. É porque sei que vou morrer que minha vida, como toda vida, me parece tão preciosa."

(André Comte-Sponville)

"Jamais vivemos, esperamos viver, e dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que jamais o sejamos."

(Blaise Pascal)

***
Recentemente eu ando pensando bastante em toda essa grande questão existencial. Não chega bem a ser uma atividade introspectiva tal como a de alguém que pensa calmamente sobre si próprio e disso vai derivando linhas de pensamento e conclusões. É mais um sofrimento passivo, uma ansiedade desagradável que se não domada me tira o sono e me assusta, um nervosismo semelhante a uma pedra de gelo eterno encrustada no meu peito. Esse medo abrupto não é coisa nova pra mim, já é um fantasma que me atormenta desde a infância, uma época em que eu de fato acreditava estar sendo vítima de um demônio, um diabo julgador que me condenava por ter faltado aula ou escapado pra locadora de vídeo game depois da educação física. Eventualmente o demônio desapareceu, o medo foi embora e eu deixei de acreditar que coisas como o Diabo existem. Mas os últimos acontecimentos me revelaram que o medo ainda persiste, estava adormecido mas nunca foi embora de fato e agora não se vale mais de um mito religioso, mas de uma certeza absoluta.

O que agora me atormenta não são questões envolvendo o sentido da vida, ou o que é tal coisa como a existência, conforme eu possa ter sugerido. Entender a existência me parece ser tão colossal que não tenho como ser soberbo ao ponto de achar que um dia compreenderei pelo menos parcialmente tudo o que esses questionamentos representam. A existência em si não me aflige, dela eu tento desfrutar pois afinal é a única alternativa que me resta. Não existir é impossível neste ponto, da feita que eu existo não há como abandonar o status de coisa pois ter existido é irremediável. Mas existe contudo um fim, ainda que não seja um fim absoluto -- as partículas que me compõem ainda haverão de vagar por aí. Estou sujeito ao fim dessa estrutura que forma a mim como criatura, estou sujeito à morte e à extinção total da minha consciência. A sua inevitabilidade é o tipo de certeza que eu não estava acostumado a ter.

Já faz algum tempo que me considero ateu mas nunca de fato parei pra pensar profundamente sobre as consequências da minha não crença, pelo menos até recentemente. Algumas semanas atrás a certeza da minha finitude caiu como uma tonelada sobre mim e tem servido como um marco divisor na trajetória da minha existência. Até então ser ateu significava apenas não compactuar com o mito, não defender os dogmas e rejeitar esse conjunto retrógrado de doutrinas atrelados à religião. Não crer era mais um ato político consequente da minha rejeição aos absurdos que a religião propõe do que de fato um posicionamento espiritual que levasse em consideração qualquer fagulha de existencialismo. Existem muitos ateísmos e o meu era essencialmente aquele que nega tudo o que é religioso, aquele que abandona a superstição e abraça o ceticismo científico.

Não crer entretanto, propõe um profundo desafio espiritual do qual ainda não havia me dado conta até antes dessa recente crise de ansiedade. Eu nunca considerei bem as consequências do meu ateísmo pois pra mim não havia muito além. Ingenuamente me limitei a enxergá-lo como o final de um processo de amadurecimento intelectual, consequência natural das ditas mentes evoluídas. Percebo agora que abandonar o misticismo é apenas o começo e que o grande problema de fato é o fim, ou melhor dizendo, como nos posicionamos diante da vida a partir do momento em que nos damos conta  de que "Deus está morto". Agora vejo que essa tem sido a grande charada que vem perturbando o espírito humano e que o existencialismo não é nenhum assunto novo. Cérebros bem mais espertos que o meu já se debruçaram sobre o problema e fizeram sua contribuição na tentativa de espantar os abutres que costumam surgir para consumir o cadáver de Deus: niilismo, hedonismo, determinismo, ansiedade, depressão etc.

Ainda estou longe de ter definida uma conduta espiritual ideal que me traga felicidade e paz durante a vida, sou capaz hoje de enxergar o princípio de um caminho a seguir mas sem deixar de estar consciente da grande diferença que existe entre saber por onde começar e dar o primeiro passo de fato. Muitos filósofos propõem o seu espiritualismo particular e dentre esses alguns parecem concordar entre si, mas ler muitos livros e ter conhecimento de todas essas visões não é o suficiente. Saber que é preciso abraçar a vida e recheá-la de amor sempre buscando a alegria não implica necessariamente que esta tarefa é simples. Vencer um medo arraigado numa questão profunda como essa não se resume a seguir uma receita de bolo.

No fim, acredito que o mais importante dos passos que posso tomar diante dessa nova circunstância é reconhecer-me como um homem do meu tempo. Um indivíduo pós-moderno lançado num mundo sem grandes metas universais, vivente de um século que carece de uma nova espiritualidade e sobretudo uma criatura refém de suas próprias ansiedades. O bom ateísmo não se limita à não crença, mas entende as consequências daquilo que representa ser cético de fato. Ser ateu não se resume a combater o dogma, mas a combater principalmente as incongruências que nos afligem a partir do momento que passamos a andar sem muletas.

"O que é ser ateu? É amar a verdade pensando que a verdade não nos ama, e que não temos que esperar que ela nos ame para amá-la!"

(André Comte-Sponville)

Resta portanto seguir em frente e combater os próprios demônios, aprendendo a lidar com esse amor não correspondido entre nós e a verdade.

Desgosto

É complicado este negócio de se expressar, exprimir algum pensamento quando falta o pensamento. O conteúdo é ausente mas o desejo de falar qualquer coisa permanece, talvez numa tentativa de se aliviar ou mesmo até entender a si próprio. Afinal, sou eu tão vazio assim ou é minha cegueira que não me permite ver os meus próprios pensamentos?

Que desgosto, desgosto de mim. Ando meio amargurado com essa coisa toda de vida. Sinto desgosto até da minha própria amargura, veja só. Mas não é um desgosto maníaco, não quero me matar, não deixei de amar as coisas que já amava. É um desgosto do marasmo, da minha castração, da crescente esterilização de qualquer porção criativa que ainda possa existir em mim. E o desgosto maior é que não é a primeira vez que venho contar desgostos. Que desagradável a lamúria.
Licença Creative Commons

Este blog é licenciado com a Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir o conteúdo aqui encontrado, mas não pode vendê-lo ou alterá-lo.