17/01/2012

As Três Marias

Três malditas marias, três demônios que eu tenho que matar.

A primeira já se foi, de certa forma apenas, mas se foi. A forma como as coisas se resolveram não foi das mais agradáveis - uma espécie de fracasso menor, eu creio - mas foi posto um ponto nisto, nesta bobagem que eu criei, nessa confusão sem sentido na qual me meti - pelo menos a primeira delas, as confusões sempre são muitas. Ainda assim - ainda que se considere tudo findo, o demônio morto -, foi bom tê-la visto novamente. Emagreceu, parece ter ficado um tanto mais tímida também - se bem que, muito provavelmente fui eu que me tornei altivo, soberbo e simulando uma espécie de destermor que nunca tive. Ela olhava o chão enquanto eu não olhava outra coisa senão seu rosto, conversamos decentemente pela primeira vez.

Se no passado tivesse sido o que sou hoje talvez as coisas tivessem um outro resultado, talvez não houvessem marias a serem mortas. Mas não é bom pensarmos em termos de "se", se isso, se aquilo, o que se pode fazer é, no máximo, encarar o demônio hoje, no presente. É uma maria que se foi, acabou, sem chances, nunca mais. O demônio está morto, ainda que eu não tenha me sagrado campeão.

A frustração é uma merda, uma bela porcaria, diga-se. É o tipo de sentimento que é capaz de alterar significativamente a vida de alguém. Não fosse a frustração, não fosse essa tristeza por nunca ter tido aquilo que se desejou, esses embates contra agentes do passado não existiriam e, provavelmente, a mente se ocuparia de tarefas mais nobres que esses sentimentalismos pessoais. São um tanto deploráveis algumas dessas facetas nossas, essa por exemplo. Coisa de criança mimada quando se vê sem ter o que quer. Isso me faz imaginar que, talvez, todos esses grandes artistas são um bando de crianças mimadas. Não tendo aquilo que querem vão chorar em quadros, poemas, música. Muito acaba se resumindo em desejo, um poderoso agente motor que modela o mundo.

Eu quero, eu ainda quero e vou encarar o demônio tendo em mente a minha vontade, tentarei torná-la real. A depender do embate um texto diferente será escrito. Talvez um que fale do contentamento por enfim, após tantos anos e pensamentos, ter tido aquilo que quero. Ou talvez um outro - já um tanto tradicional esse - que fale do opróbio que é o fracasso definitivo, o insucesso na última tentativa. Mas certamente, seja qual for o resultado de tudo isso, porei em prática um ritual que tenho em mente. Vou me encarar diante do espelho e bater palmas pra mim, celebrando, não importa o resultado, eu vou celebrar. Baterei palmas em virtude desse que será um dos maiores empreendimentos de coragem dessa minha diminuta existência. Esta maria, a segunda, é a que eu mais temo - ah, e como a temo. Quanto mais me aproximo do combate mais apreensivo fico, mais meu sangue esfria e menos eu sei como agir.

Uma coisa é falhar em algo que você sabe que pode fazer outra vez, mais preparado, experiente. Outra coisa totalmente diferente é se perceber num ponto definitivo, algo único em que todo aquele desejo acumulado está em jogo. Não existe segunda chance pra garotos crescidos.

Todo mundo deve ter lá os seus demônios do passado, algum elemento distante no tempo que ainda insiste em ressurgir em meio a pensamentos desagradáveis. Mas ao que me parece, todos vivem vidas perfeitas, cheias de sucesso e felicitações. Parece que é coisa de poucos admitir que se está sendo perseguido por uma horda furiosa de lembranças. Há aqueles ainda que parecem ignorar isso e só lembram daquele elemento perdido no tempo quando, pela noite, ele surge retardando o nosso já tão escasso sono com uma dezena de imagens que pareciam perdidas.

A primeira já está morta, a segunda enfrento em breve, e quanto a terceira? A terceira é uma questão de conversar e pedir desculpas. Não existe mais desejo quanto a ela, em verdade o desejo existe, ele nunca morre ao meu ver, o que ocorre é que, nesse caso, ele foi lançado aos desejos banais, aqueles desejos que se sentem fácil por coisas comuns. 

Eu quero partir daqui com isso tudo resolvido, com a sensação de que tudo acabou, haja sucesso ou não. Isso deve ser aquele tipo de coisa que as pessoas chamam de lavar a alma, pois vou lavar minh'alma no sangue das marias.

Sangue de Maria

Em minhas mãos jaz o sangue que um dia foi teu.
Lembras tu aquilo que há muito de mim levou?
Pois em teu sangue reclamo o que é meu,
tua morte é o presente que me dou.

10/12/2011

Película

Antes de realmente desenvolver minhas ideias nesse texto, acho importante tornar o leitor ciente de alguns conceitos que serão desenvolvidos no seu decorrer. Quanto aos leitores que já são familiares aos tais conceitos, lhes aconselho a prosseguir calmamente com a leitura, sem o salto de linhas, pois assim observarão a minha interpretação sobre suas definições, coisa que é um tanto subjetiva.

No jogo de RPG Lobisomem: O Apocalipse, a Película é a barreira existente entre o mundo material, este onde habitamos, e a Umbra, que é o mundo espiritual, habitado por entidades místicas com nível bastante variável de poder. Neste jogo, os lobisomens, mais conhecidos como Garous, são criaturas que vivem com os pés em ambos os mundos, tendo portanto, a habilidade de atravessar a película e caminhar pelos diversos planos da Umbra. Um desses planos é a Umbra Virtual, que deu origem ao título deste blog.

Boa parte da função de um lobisomem na sociedade Garou, bem como sua própria personalidade, é definida de acordo com a fase da lua no dia de seu nascimento, isto é, o seu augúrio. Os signos lunares constituem os arquétipos de personalidade que são a base para a construção e interpretação de qualquer personagem no jogo. Dentre esses signos existe o Ragabash, que é o correspondente à lua nova. Garous de tal signo são os menos irascíveis, mais brincalhões, certas vezes são os advogados do Diabo, são sagazes, inteligentes, grandes questionadores, sua eficiência em batalha se dá pela sua habilidade com a mente, não com o corpo. Entretanto, existe a outra face do garou ragabash, que pode ser um manipulador exímio, um furtivo assassino impiedoso ou um garou cheio de rancor, que é gerado toda vez que sua voz é emudecida pela brutalidade dos ahrouns, garous do signo guerreiro. 

Mas ao meu ver, por trás de todo ragabash existe um silencioso observador da realidade, que guarda apenas consigo certas impressões que os outros não observam. A fúria nos ragabash é menor porque Gaia, a mãe criadora, sabe os filhos que tem. Um ragabash enfurecido é algo que se deve temer bastante.

Nos dias de lua nova as características do signo ragabash são realçadas, estando ele mais propenso a ser questionador, manipulador, furtivo etc. Ao atravessar a película, um garou se sente mais livre, forte e mais próximo de seu lado menos conhecido, o espiritual.

Ocasionalmente, quando me embriago, me sinto um ragabash, numa lua nova, após atravessar a película. E mais ainda, pareço um ragabash que esqueceu ou ignora a ordem do mundo e resolve vomitar todas as impressões que costuma carregar silenciosamente. A fúria acumulada é posta fora, mas diferente dos pretensiosos ahrouns ela não se manifesta como um ataque violento de destruição, não, apenas se rompe o véu e todos veem o verdadeiro ragabash. Nisto reside um grande problema.

O ragabash interior é feio, cheio de impressões podres sobre tudo. Mas digamos que o ragabash em questão não seja tudo isso e tenda a um arquétipo mais nobre, transformando-se apenas no bobo da matilha. Ainda assim, ele sabe o que carrega consigo, e os outros não gostariam de ver. 

Quando estou muito embriagado tudo sai, e os outros, vendo o que sou, ficam chocados e quase sempre bastante ofendidos com as navalhas de sinceridade que são atiradas a todos os lados. É como se eu atravessasse a película e começasse a correr pela Umbra berrando verdades desagradáveis. Mas o pior é que essas tais verdades não são grandes observações minhas sobre o mundo e as pessoas, nada disso, são apenas os meus desejos cretinos, a minha raiva escondida e a minha megalomania amansada.

Mesmo tendo ciência da tamanha estupidez que tudo isso é, a vontade é não parar de correr, de continuar sentindo esse doce sabor de liberdade e parar apenas nos mansos braços de Gaia, que ama a todos. Essa é uma face muito interessante em Lobisomem, a mãe. Sem a certeza dela, o ragabash e qualquer outro garou seria muito mais amargo, pisoteado pela inevitabilidade de seu destino, que é ser esmagado pela Wyrm na última batalha.

Consigo imaginar o que um garou é capaz de sentir quando reencontra sua matilha após uma jornada umbral solitária. A vontade é abraçá-los, e em silêncio desejar nunca mais cair nos braços da liberdade inebriante, ou seria da embriaguez libertadora?
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