O Idiota

Estou contente, tão somente isso é suficiente como introdução ao texto que há de seguir, uma introdução breve, simples. O necessário pra resumir muitas coisas, coisas essas que na verdade são um compêndio d'outras, que - essas - por sua vez, foram tão somente geradas porque algumas outras - aparentemente - por coincidência manifestaram o desejo de se unir, se é que coisas tem algum desejo sequer. E dessa forma o conjunto ideal pra esse momento foi formado, composto. E eis que aqui estou, contente.

Estou lendo Dostoiévsky, mais precisamente O Idiota, e isso já há quase um mês. Diferente d'alguns amigos meus, eu - embora me considere um assíduo leitor, bem como amante da leitura - não sou um leitor compulsivo. Não me comporto mais como na minha infância, em que eu lia um livro em um, dois dias.

Esse livro, um tanto quanto extenso (atingindo o escopo de seiscentas páginas) tem me intrigado sobremaneira, e eu confesso também que tem me irritado um pouco até. Me irritado não porque seja um livro ruim, ou que seja uma estória previsível ou qualquer coisa do tipo, não senhores, muito pelo contrário. O livro está me irritando porque todas, salvando poucas excessões, todas as personagens são pessoas detestáveis em sua maioria. Isso começa no protagonista, que é inteligentíssimo mas, ainda assim um perfeito imbecil ingênuo, daqueles que é capaz de perdoar a todos, o que não é feio, mas é do tipo que seria capaz de perdoar no ato alguém que, em sua frente acabasse de matar sua mãe, por exemplo. É do tipo que não se ofende nunca, mesmo diante do mais profundo insulto. Parece até que o mesmo não possui amor próprio, um verdadeiro bobalhão infantil, isso até aqui tem me irritado por demais.

Não sendo isso suficientemente desagradável, todas as outras personagens são pessoas com umas falhas de caráter que, vez ou outra, acabam por se mostrarem. E essas falhas são coisas que pelo menos em mim, tem despertado um profundo desprezo por todos na estória.

Entretanto, pois em tudo há um contudo, quando paro pra ler o livro o tenho lido profundamente, com real interesse, porque mesmo sendo a grande maioria das personagens pessoas com as quais eu não consigo sentir afeto ou interesse algum, a estória toda é exposta dum jeito que me faz querer saber o fim. Saber se realmente eu vou ficar puto com Dostoiévsky pelo resto da vida ou se tais personagens, pelo menos as com mais destaque, vão acabar se redimindo e merecendo um interessante final. Enfim, estou um tanto curioso, não muito, ainda assim intrigado.

Romances do século dezenove são um tipo de leitura que eu tenho percebido como sendo um tanto enfadonhas, pelo menos até o presente momento. Sim, podem ser livros deveras interessantes em certos pontos, ainda assim não deixam de ser enfadonhos. Não sei muito bem porque, mas toda essa futilidade da gente rica da época é algo que não me atrai muito, gosto de livros que possam, através de uma boa narrativa, me passar alguma introspecção, me fazer pensar d'alguma forma que seja. E embora O Idiota seja um romance do século dezenove, sobre gente rica e fútil, ele acaba me ensinando certas coisas sobre como nos relacionamos.

Recentemente um acontecimento, desagradável por sinal, acabou me trazendo uma visão mais interessante sobre algumas características do livro, e além de me fazer começar a enxergar Dostoiévsky como um interessante autor.

Certas pessoas que conheço não me estimam, na verdade me detestam, por questões pessoais quaisquer. Acontece que, ainda assim, essas pessoas se portam de uma maneira muito ingênua consigo mesmas diante do fato de me abominarem. A ingenuidade reside no ponto de que essas mesmas pessoas não chegam a portar-se de acordo com aquilo que sentem, ou seja, de forma que torne explícito a todos que de fato me abominam. Nessa sua ingenuidade, creio que chegam a pensar serem detentores de poderosos e triunfantes planos conspiratórios que teriam o poder de me prejudicar de alguma forma. Ingenuidade pura, sou do tipo que não se importa muito com a grande maioria dessas fuleragens, então isso não me afeta muito, não atualmente.

Pois bem, é exatamente dessa forma que certas personagens do livro se manifestam, e além de enganar somente ao tolo Míchkin, chegaram a me enganar também como leitor. Posto que essas pessoas se portam com o príncipe de forma a tratá-lo bem, conforme todas as fuleragens do trato social. Ainda assim, mesmo lhe tratando bem, conforme dita o trato, essas personagens vez ou outra não negam fogo e perdem as estribeiras demonstrando toda a sua podridão interna e externando uma espécie de cólera pra com Míchkin. E o que é realmente mais foda nisso tudo, é que Míchkin é um verdadeiro boiolinha, e prontamente perdoa a todos e os acolhe, esses por sua vez, se surpreendem com a atitude do mesmo e parecem se redimir com o protagonista, bem como comigo, o leitor. Então eu sigo contente e saltitante com minha leitura, por pensar que reside um pouco de humanidade nos personagens e que eles de fato são nobres em algum quesito. Qual nada, não demora muito pra que qualquer evento, por mais simplório que possa ser, acabe sendo motivo pra que os mesmos se sintam livres os suficiente pra externar sua cólera novamente.

Isso tudo, tão somente reafirma algo que eu já prego há certo tempo. Todos devem se comportar conforme aquilo que realmente sentem, não sendo ingênuos consigo mesmos e não procurando eventos aleatórios quaisquer pra terem a liberdade de serem rudes, tais como são os personagens do livro, párias que são. Entretanto, existe algo que media tudo, e acaba tornando a convivência entre todos algo real, isso não é outra coisa senão o respeito. Respeito esse que é o responsável por manter a integridade de todos num grupo, mesmo que nesse grupo existam alguns que se desgostem, respeito é tão somente a prova que de fato possuímos um cérebro evoluído e somos capazes de agir com sensatez.

Recentemente eu fui prejudicado, expulso de um grupo justamente por conta disso, por conta de que, assim como as personagens repulsivas existentes em O Idiota, certas pessoas que não me estimam não sabem lidar com esse desagrado e por sua vez, acabam se utilizando de um evento aleatório qualquer pra externar esse sentimento e agir de forma grostesca como as já citadas personagens agem.

A conclusão que aqui tomo é a seguinte. Prefiro ser honesto comigo mesmo, ainda que sendo taxado de "filho da puta" de "mala", agir honestamente diante do que sinto com relação a certas pessoas, respeitá-las no que me compete e continuar tocando minha vida, do que agir conforme o idiota de Dostoiévsky, que a todos ama, quando na verdade, sequer sabe quem são.


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