Um Homem

Um texto profundo se torna necessário quando se percebe que aquilo que se pretendia dizer não foi dito, e isso geralmente só se torna claro depois que várias palavras já foram desperdiçadas. Inicialmente lidas, depois revisadas, daí então, depois de revisá-las novamente, percebe-se que ainda não se viu ou se ouviu, ou sequer foi vislumbrando de longe - ainda que embaçadamente - aquilo que a princípio é o que se desejava expor.

Havia um homem que, aturdido quanto ao que estava sentindo, se percebeu na necessidade de escrever algo, um texto profundo preferencialmente. Algo que d'alguma forma fosse capaz de expôr perfeitamente, a qualquer um que viesse a ter a disposição de lêr, aquilo que tanto lhe afligia, o sentimento desagradável que já estava por lhe inquietar há certas semanas.

Estava lá ele, em sua casa, zanzando por ela inquietantemente. Logo mais à sua frente havia uma espécie de algo rústico, um móvel feito de madeira nodosa e pouco trabalhada, algo muito similar à uma escrivaninha dos dias de hoje; e sobre ela havia papel, tinta e pena.

A inquietação desse mesmo homem já estava o dominando por completo ao ponto de que não dormia já havia algumas horas, umas quantas horas por sinal, mas ainda assim o cansaço não era sua maior preocupação, tampouco era o que de fato o incomodava. O que realmente estava lhe aturdindo a alma era tão somente o fato de que algo que estava em sua mente, castigando-o - pensava consigo -, não conseguia ser transferido, transportado pelo seu corpo, saindo de sua mente, passando através do braço e aí então encontrando a mão com a pena sobre o papel. O sentimento estava devorando-o, destruindo-o e o único remédio que ele via ser realmente capaz de lhe curar seria ver a tinta caligrafada num papel, a manuscrição de uma coisa qualquer que fosse capaz de explicar, mesmo que de modo rasteiro, aquilo que há dias atrás começou a lhe alfinetar a alma.

A rotina era como que uma espécie de protetor ao nosso solitário personagem, que embora habitasse a casa mais afastada duma vila que por si só já era bastante afastada de qualquer região mais populosa, por assim dizer; ainda que a solidão fosse algo concreto e tangível na vida do nosso agente, ela nunca foi um problema de fato, nunca chegou a ser algo que fosse capaz de o afligir verdadeiramente. Muito pelo contrário até, ele se congratulava por ser um homem só, sendo que dessa forma ele se percebia diferente, especial, alguém que em contramão ao consenso geral buscava o conhecimento, via o mundo com um olhar mais aguçado e não perdia o seu tempo com as futilidades que uma vida mais sociável pressupõe.

Andava geralmente bastante ocupado com planos particulares, planos de estudo, uma busca compenetrada e profunda, embora bastante cega, à procura de conhecimento, de razão, respostas às perguntas que vêm destruindo as mentes mais ávidas que já pertenceram a este mundo. Vivia ele assim, compenetrado consigo mesmo, produtivo, hábil naquilo que se dispunha a estudar e praticar. Um homem realmente admirável quanto à sua capacidade pessoal, bem como quanto à sua própria visão das coisas, muito profunda por sinal, mesmo se tratando das coisas mais rasas da vida. Era alguém com o qual se era muito proveitoso prosear, dialogar, discutir que seja, por pelo menos uma vez que fosse.

Só que recentemente, e é nisso que inicia a problemática, algo novo o atingiu de cheio e fez com que toda a estrutura de seu escudo - sua rotina - se abalasse por inteiro. Acontece que a rotina desse homem era, como já citado acima, aquilo que o resguardava e o protegia, era o seu guia. Ele sentia conforto diante da margem de previsibilidade existente numa vida relativamente rotineira. A confiabilidade dos fatos atuais, bem como a previsibilidade dos futuros era algo que o tranquilizava de certa forma e permitia que as tarefas às quais ele se aplicava fossem postas em prática. Assim, a cada dia ele prosseguia, progredindo.

Pois que lá estava ele hoje, em pé, aflito e irritado porque pela primeira vez sentia o revés do que antes lhe servia de conforto. Naturalmente que ele, como inteligente o bastante que era, tinha muita ciência de que era uma homem só, percebia o quanto sua vida tinha se tornado reclusa nos últimos meses e o quanto suas conversas e saídas dimuiram consideravelmente, saídas essas que sempre foram pouco frequentes. Mas ultimamente, essa mesma solidão começou a doer, e era uma dor que não se podia suportar.

Posto que diante disso - da insuportabilidade da sua tristeza - ele começou a escrever. Fez um relato um tanto quanto longo e detalhado a respeito do seu atual estado de espírito, descrevendo com pormenoridades as sutilezas de sua tristeza e ao mesmo tempo o seu paradoxal contentamento em conseguir descrevê-la, em conseguir escrever.

Dentre muito do que escreveu em todo o seu texto pouco sobrou, pouco conseguiu resistir ao efeito da deterioração que o tempo carrega consigo. Mas do pouco que ficou têm-se:

"O que mais atormenta um homem que possui um gênero de personalidade que se a assemelhe ao meu é tão somente o fato de que, na percepção da própria solidão e na análise minuciosa da própria vida, nota-se que a solidão é uma simples consequência de uma personalidade muito singular e pouco compatível com o estereótipo comum, no que se diz sobre preferências e opiniões. Isso por si só não é entristecedor, posto que a história tem mostrado o poder que a ignorância possui nas multidões e no consenso geral. A multidão é burra e eu me orgulho de andar distante dela.

O que hoje me faz sangrar a alma é o simples fato de que não há um, ainda não pude enxergar um sequer que - estando fora da multidão - pudesse fazer par comigo e me fazer companhia, e paralelamente a isso regozijar uma pessoa como eu que, não diferente da multidão, também é humano e inerentemente um ser sociável. O que me faz chegar à simples conclusão de que não estou triste porque sou um arrogante, posto que de fato sou, também não estou triste porque esses anos todos não houve um momento sequer em que alguém congratulou comigo os meus feitos e sucessos, não, de fato não.

Estou triste porque eu sou um homem."

O texto foi escrito, cansado ele adormeceu. Ao acordar, no outro dia, retomou sua rotina, ao ver o texto sobre a escrivaninha o pegou e releu, deu um sorriso e o guardou com os tantos outros que haviam dentro duma gaveta qualquer, dessas que todo móvel do gênero de uma escrivaninha possui. Prosseguiu com sua rotina, retomou sua vida e com o passar dos anos veio a morrer, como todo homem.

A verdade é que depois desse dia, a tristeza foi algo que nunca o abandonou de fato. Esteve sempre ali, alojada, resguardada e aquecida no lugar reservado somente aos melhores amigos.
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