Cláudia, Carlos e os Corleone.

- Oi Claúdia, é o Carlos.

- Oi Carlos.

- Tenho algumas coisas pra te dizer, vai tomar algum tempo, melhor você sentar.

- Tô deitada no sofá.

- Melhor.

- O que foi?

- Há muito tempo que não nos falamos, sequer trocamos mensagens por qualquer destes tantos sites por aí na Internet. Aí, numa atitude que até agora me parece um tanto precipitada, não sei ao certo, resolvi te ligar. A saudade tava grande e eu resolvi quebrar essa espécie de medo que costuma me afligir nessas situações, daí descobri teu número e aqui estou.

- Que situações?

- Situações em que eu preciso falar com alguém com quem não falo muito, ou dar esclarecimentos a um desconhecido, essas coisas.

- Acho que entendi.

- Pois sim. Conforme você bem já sabe, até porque eu já te disse isso antes, eu sou apaixonado por você. Tu me conhece bem o suficiente, eu imagino, pra saber que eu detesto este tipo de expressões como "apaixonado", "eu te amo", essas merdas. Mas se eu dissesse apenas que gosto de você, presumo que não causaria a impressão que quero causar e possivelmente os meus sentimentos passariam despercebidos. De maneira que me doeria mais "gostar" de você sem que você o soubesse - pausa para hidratar a garganta com saliva.

- Tudo bem, eu te entendo.

- Com o passar do tempo e conforme as minhas paixões iam fracassando, conforme eu me frustrava cada vez que me perdia por conta de uma mulher, eu fui amadurecendo, se é que é este um termo apropriado pra isso, e fui tendo uma opinião mais sóbria sobre essas merdas, esses papos de mulheres e gostar delas. Denovo o "gostar". Bem, a verdade é que surgir diante de você, seja pessoalmente ou através de um telefone ou qualquer mensagem escrita, e dizer que "meu amor por ti é tão grande que me faria nadar oceanos se preciso fosse tão somente para ouvir tua voz", fazer isso seria de um exagero e falsidade absurdos. Tão sem propósito e descabido quanto aquelas burrices que eu fazia na adolescência: cartas de amor, poemas, ouvir aquelas músicas horríveis, tudo isso é uma baboseira sem fim. Peraí que tem alguém chamando na porta, só um instante.

- Tá.

Nisto, ela continua deitada e aguarda na linha. Dados alguns poucos minutos, uns cinco talvez, ele regressa e ela pergunta:

- Que foi?

- Chegou meu box de Godfather, do caralho.

- Pô, foda.

- Pois sim, com o tempo fui percebendo que relacionamentos "de sucesso", conforme dizem esses baitolas da TV, costumam ser na verdade relações de companheirismo com boas doses de afeto , sem essas merdas de amor daqueles do tipo de românticos tuberculosos. Pois então, ponderando isso eu observei que o ideal seria me tornar teu companheiro conforme convivíamos, assim teríamos um certa relação de cumplicidade, que poderia se transformar em algo mais, tudo suavemente, sem exageros. Mas isso não foi possível.

- Pois é, a gente não conviveu muito. E tu era meio gala seca também.

- É, tu já me disse isso uma vez. De qualquer forma, diante de todos os bagulhos que eu tô sentindo, resolvo expressar, na maior sobriedade possível, os meus pensamentos e sentimentos para com a senhora.

- Vai lá, pode dizer.

- Eu quero você. Ocasionalmente desejo conversar contigo, sentir completude diante d'algumas frustrações, receber carinho quando e conforme eu desejar, tudo isso vindo de você. Mas também não gostaria de conversar tão profunda e intensamente o tempo inteiro contigo, já que percebo que com o tempo tu poderia acabar me torrando a paciência e destruindo qualquer possibilidade de relacionamento, o inverso também poderia ser verdadeiro. Além destas questões que envolvem essas fuleragens psicológicas, eu também quero te comer. Desejo te ter nos meus braços, te passar a vara e cheirar esse teu cangote, chupar esse teu peito, que imagino eu deve ser firme e ao mesmo tempo macio, perfeito em suma, desejo puxar esse teu cabelo, te pegar de quatro, comer o teu cu e chupar a tua buceta. Enfim, eu quero te foder de jeito.

- Era isso?

- É. Sinto muito se eu te ofendi com essa história toda, depois de muito pensar acabei por entender que você deveria saber disso. Me desculpe.

- Tudo bem, só tenho uma pergunta pra te fazer.

- Qual?

- Quando?

- Oi?

- Quando é que cê pretende vir me comer?

- O mais breve possível.

- Então vamo agora. Vem aqui em casa.

- Certo, tô indo aí.

- Só mais uma coisa.

- Diz.

- Traz o Godfather.

- Beleza, tô indo já. Até daqui a pouco.

- Tá, vem rápido. Tchau.

- Tchau.

Carta para Fernanda

Oi  Fernanda, eu tenho 19 anos e sou "técnico em informática". Não gosto muito bem deste termo porque acho que não me encaixo bem naquilo que vejo ser um "técnico em informática". Gosto de estudar computação, principalmente programação, redes e ambientes baseados em Unix. Não gosto do modelo de desenvolvimento de software proprietário e estou cagando pras tecnologias Microsoft - ainda que eu trabalhe com isso e entenda razoalvemente de servidores e desktops Windows.

Trabalhar com isso foi a opção mais viável para conseguir dinheiro, mas minha real vontade é acordar tarde todos os dias, não ter patrão e não ter que aturar a ignorância e burrice das pessoas que atendo. Mas eu acostumei a ter dinheiro, pois ainda que seja pouco ele me compra livros, revistas e paga minhas poucas distrações.

Além de computação eu gosto de livros, embora deles eu pouco entenda. Apenas leio o que acho bom e falo mal do que acho ruim. Meu escritor preferido é José Saramago, mas dele li apenas O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Não li nada que se comparasse a tal leitura, é um livro que me impressiona sempre.

Quase nunca leio poemas e não tenho o menor talento pra escrever qualquer coisa que tenha rima e versos. Romances é o que gosto de lêr, mas como sou um péssimo leitor conheço pouquíssimo sobre a boa literatura, principalmente a brasileira. Recentemente, após ter lido um excerto numa questão do ENEM, me surgiu a vontade de ler algo escrito por Jorge Amado.

Sou um tanto ranzinza, não gosto de  MPB e aprecio pouco os fans desta coisa. Da cultura paraense aprecio apenas um pouco da culinária, a música daqui não me agrada muito os ouvidos. Se eu soubesse dançar um pouco de Brega talvez achasse a música melhor, talvez.

Fiquei bastante satisfeito com o seu comentário, me agradou. Acho bastante improvável alguém agradar-se com isto aqui, sem contar o fato de que conheço pessoalmente os - cerca de - cinco leitores deste blog, ou seja, só meus amigos costumam lêr o que escrevo. Não entendo muito bem o motivo de você ter apagado o comentário, deve ter tido suas razões. De qualquer forma, eu recebo uma cópia de todos eles por email, sendo assim tenho o seu arquivado também.

No twitter eu sou @roneygomes, mas não encare com seriedade o que escrevo por lá. Aparentemente o Twitter é o espaço onde uma faceta mais psicodélica minha costuma habitar, não reflete todos os meus pensamentos, apenas os mais esquisitos. Meu email é roney477@gmail.com, leio-o diariamente e acredito ser uma das melhores ferramentas de comunicação da Internet, se você estiver interessada podemos trocar algumas mensagens.

Eu estudei cinco anos no CEFET, cursando o curso de Eletrônica, mas minha irresponsabilidade e raiva me impediram de continuar. Ainda tenho matrícula por lá, mas acabei conseguindo meu Ens. Médio pelo exame de suplência oferecido pelo governo (o antigo DESU). 

Esse monte de porcaria que acabo de escrever foi uma tentativa de me descrever, não gostei de como ficou mas talvez ajude-a a conhecer um pouco mais de mim, conforme você pediu.

A verdade é que  hoje eu tentei escrever e não consegui, estou há mais de uma hora tentando e não consigo dizer nada. Acabei achando melhor atender o teu pedido.

Até logo Fernanda.

Bom Ânimo

"Disse-vos estas coisas para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo."

A minha falta de amadurecimento, bem como minha pouca experiência de vida, costumam ser fortes inimigos nos piores momentos. Isto é potencializado de acordo com os meus níveis de impaciência, que costumam ser elevados.

Recentemente passei a andar por um período complicado, onde eu sou um grande inimigo de mim mesmo. A soma dos meus problemas familiares com a minha falta de humildade e o meu pessimismo, me fazem passar por um momento de infelicidade - que não chega a ser tristeza, mas é tão ruim quanto. Isso tudo me faz observar a vida de uma forma cinza, amarga e rancorosa. Coisa de gente ridícula, e eu abomino ser ridículo.

Tenho ciência de que isto não é saudável, prejudica e destrói. Contudo, também sei que tolo seria se - repentinamente - tentasse me tornar o Palhaço Alegria, saudasse a todos e vociferasse aos quatro cantos que a vida é bela, que não importam quais dificuldades surjam, e toda esta ladainha de gente feliz - ladainha cuspida pela TV e livros da Sextante. Enfim, essas paradas não combinam comigo.

Hoje após o expediente fui à casa do João que - ainda que já estivesse anoitecendo - estava ferrado a dormir. O Seu Chico acordou ele e a gente começou a bater um papo. Após certas horas de conversa e após a mãe do João já ter chegado, comecei a comentar que estava um tanto infeliz, que a vida estava complicada. Comentei de uma maneira que não parecesse um lamento, mas sim um comentário, uma atestação. Nisto, a mãe do João explicou que ela já passou por umas barras bem complicadas e que hoje - após alguns anos - é que está podendo observar as coisas mais confortavelmente.

Eu detesto frases freitas e comentários batidos, coisa fabricada e repetida, realmente detesto. Só que ela conseguiu utilizar um comentário batido de forma inteligente, me convencendo e me animando. Ela resumidamente acabou utilizando o argumento de que "sempre tem outro em situação pior". Só que nossa conversa percorreu caminhos que me levaram ao esclarecimento, que por sua vez trouxe algo que me é muito precioso pela raridade que tem: bom ânimo.

Conforme conversávamos e os exemplos surgiam, percebi que muita gente venceu barras fodidas e hoje é contente com o que faz e com a vida que desfruta, acabei por fim, vendo que eu - tão soberbo - sou um fraco medíocre que ainda que se sinta forte tomba diante d'alguns poucos percalços. Naturalmente que a conversa não limitou-se apenas a estes assuntos, falamos d'outras coisas também. Bobagens saudáveis.

Mas isto ficou em mim. Amanhã não estarei a distribuir sorrisos e abraços, nem a jurar amor e ler poesia. Mas terei tranquilidade, e com isso a tendência é que atitudes acertadas surjam e as coisas melhorem, ainda que um pouco apenas.

Rage Against GRUB

Até certo tempo atrás - coisa de semanas - minha cópia do Windows 7 era "pirata", "ilegal" e "criminosa". Pra que tudo rodasse direito eu utilizava um crack que - através de algum procedimento que desconheço - realizava o famoso "transforme seu windows em original".

O 7 Loader (crack em questão) tem algumas interessantes funcionalidades, além de ativar o Windows ele insere o logo do fabricante que você desejar na página Sistema, no Painel de Controle. Ele costuma funcionar, até travar todo o seu sistema sem nenhuma explicação, ou ser pego por alguma ferramenta de detecção que a Microsoft põe nas atualizações, e que você - tôlo ingênuo - instala confiante e feliz.

Pois aconteceu do Windows travar e levar meu PC junto. O sistema travava durante o boot corrompendo também as entradas de boot do GRUB, ou seja, nada de Ubuntu e nada de Windows 7, o que significa nada de computador, e sem computador eu sou um homem triste.

Tentando Voltar

Faz cerca de três meses que não escrevo, faz cerca de três meses que arrumei um emprego após ter decidido que precisava tomar um rumo. Minha decisão foi tomada depois que todos os conflitos que se passavam em mim e na minha casa me forçaram a tomar uma decisão que de alguma forma pudesse mudar as coisas.

Agora eu estou trabalhando e estou infeliz outra vez, e depois de ser expulso duas vezes meu irmão está de volta. Parece que essa porra não tem cura.

Estou muito insatisfeito e infeliz, amargo. Essa viadagem já é antiga e sinto vergonha em ficar recontando isso, de tão batido que é. Sempre a mesma coisa, a mesma história de sempre mudando apenas o contexto.

Merda, não consigo escrever e isso me destrói. Talvez você não tenha noção do quanto conseguir escrever algo tem significância pra mim. Aí eu vou começar com esse subterfúgio - escrever que não consigo escrever - só pra encher o texto de letras e ver vários parágrafos na tela, aliviando a minha gana.

E amanhã tem trabalho, e gente medíocre e computadores que executam Windows XP. Gente medíocre e computadores medíocres, vou abrir um parque e ser um palhaço chamado Titio Medíocre.

Te amo Tainah.


Dicotomia

Eu quero fumar um cigarro do alto dum prédio vendo o Sol se pôr. Talvez na companhia de alguém que pudesse ter uma conversa boa comigo, comigo de fato. Dificilmente alguém conversa comigo, geralmente conversam com outra pessoa que está em mim e que parece que sou eu mas de fato não é. É uma outra pessoa forjada por comportamentos alheios, um outro alguém que absorveu costumes, expressões e trejeitos de outros. Mas não sou eu.

Eu costumo ser apenas quando estou por aqui, ou na grande maioria dos momentos em que estamos sós, nesses momentos sim, eu costumo ser. Eu não falo gírias, eu não sou empolgado, na verdade costumo ser um tanto frio e mal humorado. Odeio uma porção de coisas e geralmente sou bastante intolerante. Por conta dessa intolerância compreendo perfeitamente que não me tolerem, e por isso, eu não costumo aparecer, costumo ficar por aqui e deixar o babaca escroto conversar, rir e fazer tolices. Ele faz tolices demais, logo, nós fazemos tolices demais. Afinal, eu sou ele e ao mesmo tempo não sou. Enfim, viadagem.

Eu detesto quase tudo que a maioria das pessoas que conheço gosta, e certas coisas eu mais que detesto, abomino. A vantagem em se haver um outro de mim é que esse outro nos torna um tanto mais flexíveis, pessoas passíveis a um convívio. Não fosse esse babaca seria complicadíssimo conviver comigo, principalmente porque eu sou um tanto detestável. Sou extremamente egoísta, me aprecio muitíssimo, embora não ignore as muitíssimas falhas e ranhuras que existem em mim, ou em nós.

Gosto de mim porque, eventualmente, me surpreendo com o que faço. Observo que um ser tão cheio de mediocridade é - ainda assim - capaz de certas coisas prodigiosas vez ou outra. Contudo, não esteja você a pensar que aquilo que é prodigioso pra mim o venha a ser pra você. Pra mim, há prodígio em pequenas coisas. Eu aprecio muitíssimo o meu idioma, a Língua Portuguesa, adoro escutá-la e o faço sempre que posso, desde que - é claro - seja bem falada, pronunciada, pontuada - sou um tanto chato no que nisto tange. E este que somos nós vez ou outra escreve algo que gosto. Acho prodigioso que ele escreva, porque só quando ele escreve é que eu surjo e assim, nós - que somos, ao mesmo tempo, ele - conversamos e podemos ser de fato quem somos, um.

O que quero dizer é que eu, sou mais que apenas um homem, sou dois. E destes dois o que mais aprecio é este que sou eu agora, porque o outro que também sou eu não costuma ser muito interessante, limitando-se a ser um idiota passível às idiotices de quem é jovem. Tristemente, este outro que sou eu é o que mais aparece, é o que mais vive e é. Ele sempre está quando há alguem do lado, numa roda de amigos, é sempre ele, um empolgado medíocre e pouco inteligente, covarde e mal sucedido em quase tudo quanto se põe a fazer.

E eu nunca estou, ou sou, quando há alguém, de maneira que nunca há quem converse comigo, porque sempre que estamos com alguém eu fico mudo e quem fala é ele - que não é de falar algo que se deva levar a sério. Por isso eu quero conversar com alguém, quero que alguém me veja e perceba que eu existo, que nós não nos limitamos a apenas ele, que há mais que ele, há a mim também e eu sou mais que ele, que não passa de um tolo. Quero que alguém me veja e esqueça que ele existe.

É uma pena que eu só surja quando estamos aqui e por aqui pouca gente vem. Seria um prêmio ver o Sol se por fumando com alguém, seria um prêmio conversar, seria um prêmio saber que alguém me conhece.

Isso vai acabar, daqui pra frente serei apenas eu, porque, o outro, já morto é.

Vontades

É necessário que da minha parte surja um esforço na tentativa de ser sutil e com isso, agir de uma maneira que nunca apreciei em texto algum: enrolar, embromar, dizer algo indiretamente por uso de técnicas e/ou ferramentas de escrita/narrativa/descrição, ser indireto e covarde não sendo suficientemente másculo pra suportar o revés daquilo que penso. Em síntese, preciso ser um hipócrita medíocre.

Não possuo o hábito de recorrer a tais artifícios quando desejo dizer algo, geralmente me utilizo da informação crua e direta quando quero comunicar qualquer coisa. Isso faz de mim um rapaz não muito aprazível em certos pontos, gerando assim a antipatia de algumas pessoas. Contudo, necessitarei agir dessa forma pra que consiga, ao mesmo tempo, dizer aquilo que quero dizer e não ferir ou infrigir dano moral a qualquer um que esteja relacionado com os interesses que haverei de expor no que escrevo. Além de não querer magoar gente alguma, eu mais fortemente ainda quero distância das desnecessárias confusões que isso pode gerar. Já estive arrolado com isso antes, não apreciei.

Existe uma certa moça, jovem em demasia - contudo, de idade similar à minha, acontece que sou velho por dentro - com quem tenho convivido por mais tempo que o normal ultimamente. Essa jovem sempre teve crenças e valores que eu desprezo, discordo com veemência de suas convicções e as abomino fortemente. Todavia, por conta da minha humanidade e de outros fatores extremamente vinculados às variáveis pertinentes à evolução masculina, tenho - eventualmente - observado essa jovem com um outro olhar.

Não é nada que se assemelhe à paixão, não me encontro sujeito à essa doença já algum tempo, contudo, tenho sentido um lascivo e perigoso desejo de penetrá-la, beijá-la e tê-la em minhas mãos, possuindo-a de forma a saciar o meu corpo e meu ego. Não necessário salientar a imprudência existente nesse desejo considerando o fato de que a mesma possui um par ao qual - em tese - ama.

Ainda assim, não é algo de todo preocupante. Me tranquiliza o fato de que este sentimento é de natureza extremamente impessoal e cocernente apenas aos instintos dos quais não sou dominador. Mas não deixa de ser um incômodo quando ocasionalmente a observo e me imagino tocando-a e tendo-a em minhas mãos.

Acabei não sendo muito feliz na tentativa de ser indireto, acabei agindo da mesma forma, informando diretamente o que quero, a vontade que me tem surgido. Contudo, esse desejo não é algo que me assombra, tenho ciência da pequenez disso. Não há afeto envolvido nos meus desejos, pelo menos assim eu presumo. Tudo isso é fruto da minha pura e simples falta de sexo.

Isso será sublimado com o tempo. Como comentava há pouco com um amigo, isso não é nada sério, é só a punheta da semana. Depois virá outra qualquer que eu queira imaginar, e após essa virá uma outra e eu continuarei aqui até que isso se resolva. Seria interessante viver em um lugar onde se pudesse chegar pra alguém e - sem receios - comentar o quanto o seu corpo e jeito são atraentes e perturbadores. Mas esse não é o mundo onde vivo, informá-la disso me transformaria num homem "nojento", "cafajeste", etc. sem citar as ademais confusões que isso costuma trazer.

Eu só preciso é de um corpo que queira se entregar à mim, isso seria o remédio dessa tolice toda, me tornando capaz de retornar à "normalidade" - se é que ela de fato existe.

Despertar

Tenho olhado ao meu redor e apenas observado imundícies, tenho sentido nojo da mediocridade alheia, mas mais ainda, sentido nojo do quão patético eu sou. Ainda assim, eu possuo uma espécie de esperança sem sentido, uma quase certeza de que ainda haverei de superar essa coisa pequena, esse lixo, essa mediocridade.

Eu não aceito a minha realidade, eu não aceito esse ambiente, essas variáveis, essas condições. O avatar que me rege regurgitou ao observar minha pequenez, cuspiu em minha face ao ver meus grilhões, ao descobrir que sou escravo da realidade, do que é dito fato. Não há mais espaço para que se continue sendo pequeno e medíocre.

Não mais aceito essa realidade, essas cadeias, essas condições. Haverei de transformar o que vejo, haverei de remodelar o mundo e banir a mediocridade para longe de mim, remodelarei o que é verdadeiro e o que é falso pois sou senhor de minha vontade e a vontade que há em mim é maior que o real.

Sou um artífice da vontade, e a minha vontade ecoa pelo que é real, a minha vontade é.



Pequeno Resumo dos Últimos Acontecimentos

Considerando que este pequeno folhetim em hipertexto não passa de um projeto pessoal de documentação da minha vida, venho através do mesmo lhes expor, de forma um tanto resumida, o que aconteceu comigo nas últimas semanas, o que me leva a atualizar isto tão parcamente, além - é claro - de minhas conjecturas sobre qualquer coisa que me aprouver a mente.

Desde o último texto que escrevi, criei uma espécie de meta pessoal que consistiria em escrever dois textos por semana. Achei que seria válido me esforçar pra isso e manter o blog mais atualizado, melhorando minha escrita e me forçando a reservar um tempo pra relaxar um pouco. Escrever é relaxante, ainda que o que se escreva não seja de todo relevante. Isso de fato haveria de acontecer não fossem as contraventanias que ocasionalmente surgem sem nenhum alerta prévio.

Numa semana iluminada, quando pensei que poderia começar a me dedicar a mim e aos meus pensamentos, eis que meu teclado pifa e sem mais nem menos três de suas teclas deixam de funcionar, completa falta de sorte. Não poderia escrever coisa alguma sem dispor das letras S, X e W, sem contar o @ também. Letras como X e W não são muito usuais, a frequência de palavras com essas letras não é muito grande no meu vocabulário, entretanto, ficar sem a letra S foi o suficiente pra que a minha impulsividade e entusiasmo se esgotassem. Manuscrever algo não era uma opção, não me sinto confortável escrevendo manualmente e acredito que essa prática é retrógrada e contraproducente.

Posto que, teria de esperar minha mãe receber seu suado salário pra que ela dispusesse - ainda que um tanto desanimada - alguns miados Reais, necessários pra aquisição de um teclado novo, e como o salário dela costuma atrasar eu haveria de esperar um tanto. Só que, ainda esta semana, passeando pela escola vejo uma enorme pilha de entulho, Winchesters antigos, placas eletrônicas, madeira, lixo em geral. Só que no meio desse lixo todo havia uma certa variedade de teclados antigos jogados por ali, não me fiz de rogado e peguei uns três e meti debaixo do braço. De três apenas dois funcionam bem, o outro está com os pinos do conector quebrados, de maneira que preciso de um ferro de solda pra consertá-lo. Pretendo fazer isso em breve, pois esse parece ser um dos mais conservados e mais bacana de teclar.

Esse evento tosco, garimpar lixo, coisa vergonhosa pra alguns, sustento de outros, me proporcionou uma singela alegria, é bom estar desfrutando completamente dos prazeres juvenis de se ter um blog.

Me aconteceu recentemente também de abandonar por definitivo o meu curso técnico. Não me permito mais forçar-me à uma rotina que me desagrada além de me submeter aos desmandos de professores ignorantes, burros e com demasiado despreparo pedagógico. Gente que ao invés de qualificar profissionais acabam gerando vítimas. Carne crua, mão-de-obra barata pra um mercado medíocre.

Pensar nesse curso me irrita, os anos desperdiçados, os sapos engolidos, o esforço feito, as frustrações passadas. O CEFET foi essencial na minha formação intelectual e nisso posso considerá-lo como uma experiência bastante válida, mas tirando isso eu abomino aquele lugar. Perambular por ali me remete aos tempos de minha antiga turma, às minhas paixões que foram por água abaixo, todas elas. Me lembra do quanto eu era medíocre, tenho vergonha do que era. Hoje sou um tanto medíocre, mas sem vergonha.

Por conta da minha desistência tive de retornar ao supletivo pra ver como as coisas andavam no tocante à emissão do meu certificado de conclusão do Ens. Médio. Como tive de refazer a prova de Língua Portuguesa - devo ter reprovado em redação, ironicamente - não sabia se tudo estava certo e por consequência disso fiquei um tanto apreensivo. Cheguei lá, peguei a penúltima senha de atendimento, li uma revista Veja de junho de 2009, Guido Mantega nas páginas amarelas dizendo que o caminho econômico do Brasil já está traçado, independente de quem se eleja em 2010. Ele disse que se a nova gestão abolir o Bolsa Família, será deposta. Ri internamente dessa peculiar verdade, o governo viciou o povo em ração. Enfim, tirando o tédio e as reportagens sem sal, deu tudo certo, só esperar até Outubro pra pegar meu certificado, um alívio.

Agora estou aqui, parado. Sair da escola tem sido bom, retornei a ler o que quero, durmo quando quero e estudo apenas o que quero. Sou um tanto caseiro, raramente ponho os pés fora de casa se não houver um compromisso realmente interessante, ultimamente sequer tenho posto os pés na rua. Acabei me transformando no tradicional filho vadio, estorvo pra família, mas isso promete ser breve. Existe a possibilidade de que eu vá trabalhar no interior, algum emprego de pouca expressão, mas posso pegar algo melhor se utilizar meu enorme crânio.

Não sei o que fazer, essa cidade me proporciona determinados lazeres que me são muito estimados, determinadas comodidades. Mas, em contrapartida, não aguento mais esse lugar, essa violência, não aguento o que se passa nessa casa. Não sei o que faço. Quando eu era moleque não imaginava que as coisas haveriam de ser assim, eu só queria ter o cabelo azul e ser piloto da Aeronáutica.

Crianças são burras.

Xuxa

É interessante como irresponsabilidade é algo inerente à alma do vagabundo, ou daqueles que tendem a fazer apenas aquilo que lhes apetece e isso somente num momento que lhes interessar. Eu sou basicamente assim, possuo essa tendência de fazer apenas aquilo que me agrada, detesto estar submetido à uma rotina que me force à fazer algo que eu realmente não quero fazer, ou seja, sou um vagabundo medíocre. Bem, mas isso é uma característica praticamente pertinente à todo ser humano e racional com um nível aceitável de inteligência e auto-estima, não falo da vadiagem e sim do fato de ser desagradável fazer algo que não se quer fazer. Todo mundo detesta ter que fazer algo à força, mas no fim, todos acabam se submetendo às suas “obrigações” por conta de valores como responsabilidade, competência e fuleragens correlatas.

Acredito que isso se dá por conta dos próprios objetivos que a maioria das pessoas traça, de forma que esses objetivos, esses fins, são considerados suficientemente válidos ao ponto de justificar a desagradável submissão a que essas pessoas se rebaixam, coisas como tarefas e “responsabilidades” inerentes ao cargo que possam estar ocupando. Essa é a filosofia de praticamente todos os idiotas que encontro por aí, principalmente na escola onde estudo, o CEFET (atual IFPA). E isso é detestável, é a coisa mais podre e abominável do mundo.

Um exemplo válido, que seria bem elucidativo ao que eu quero explicar, é o de atrizes ou apresentadoras de televisão que estão em fase de início de carreira. Não raramente, muitas dessas vagabundas se submetem a coisas detestáveis como artifício para conquistar popularidade e por consequência disso atingir a tão desejada “estabilidade financeira”, pra no fim se empanturrar com os frutos da sua prostituição. Santo Cristo, o que se passou pela mente da Xuxa pra que ela desse o rabo pr'aquele preto feio que é o Pelé? Amor é que não foi.

Pra mim, a atitude dos imbecis da minha escola não difere disso, por conta dessa filosofia de merda, de que "é válido andar sobre espinhos e cacos de vidro hoje se isso for parte do caminho que me leve à conclusão do objetivo que defini ontem". Esses idiotas se dispõem à qualquer exigência que a maioria dos professores - que em sua maioria não passam de pessoas pouco admiráveis, sem toda essa aura mística da relação professor-aluno – impõe.

Recentemente meu professor da disciplina de Sistemas Microprocessados distribuiu vários temas pertinentes ao conteúdo de sua matéria para equipes que foram formadas na hora, durante a aula. O que ele fez foi repassar o conteúdo didático que ele teria de ministrar em sala de aula para as equipes, ou seja, as equipes tiveram que apresentar um seminário sobre o tema sorteado. O que o professor está fazendo é resolver dois de seus problemas numa vez só, ele está finalizando todo o conteúdo do semestre e ao mesmo tempo criando uma forma de avaliar cada aluno, evitando assim que ele tenha que elaborar material didático, criar formas eficientes de avaliação, dar aula.

Essa história maquiavélica de que os fins justificam os meios é coisa de juvenis incautos que acabaram de entrar na puberdade, isso é balela. O maldito diploma que eu nem sei se vou conquistar ao fim desse curso jamais há de justificar qualquer coisa que eu possa ter feito para conquistá-lo: acordar cedo todos os dias sendo que eu sou biologicamente inapto para ter qualquer rendimento aceitável de manhã, passar madrugadas pesquisando coisas relativas à assuntos que deveriam ter sido ministrados em sala de aula, ter que aturar a insuportabilidade que eu sinto diante de certos professores que não possuem tato para conversar com aluno algum. Nada disso vai justificar esse diploma, que não passa de um passaporte pra alguma empresa de merda que precisa de mão-de-obra especializada e barata, um passaporte para o inferno na verdade.

Se eu terminar esse curso, vou olhar pro meu diploma e me sentir feito a Xuxa, que teve de chupar aquela rôla preta e nojenta. Não sei se quero isso pra mim, preciso ir fazer o que de fato quero.

Conhecimento

Hoje pela manhã tive de acordar um pouco mais cedo, coisa de nove horas da manhã. Bem, pode não parecer realmente cedo considerando-se os padrões que todo mundo toma por "acordar cedo", mas levando-se em conta os padrões de alguém que costumeiramente dorme às 2:30, 3:00 da madrugada e acorda às 11:00 da manhã, hoje eu realmente acordei cedo. Ainda assim, acordei um tanto animado já que havia combinado de ir estudar com os meus amigos pra maratona de programação que anualmente ocorre em todo o Brasil.

A maratona de programação é uma competição que visa testar as habilidades lógicas dos competidores bem como seu domínio sob a linguagem a que se predispõem estudar. Os exercícios costumam ser um tanto complexos, mas com certa dose de treinamento - uma grande dose, diga-se - obtém-se prática e com isso a experiência e aptidão necessária pra resolver complexos problemas de lógica. Começamos a treinar hoje pela manhã e pelo que pude analisar possuímos sérios problemas em determinados pontos, principalmente nos que dizem respeito à clareza de código e capacidade de comunicação dentro do grupo, comunicação essa que se torna ainda mais inviável quando o Gustavo é contrariado, porque ele admitindo ou não, é notável a sua irritação quando lhe contrariam, mais ainda se ele já estiver levemente stressado por estar tentando solucionar determinado problema. É algo que devemos contornar daqui em diante caso queiramos realmente vencer.

Ainda assim eu não costumo me importar com essas pequenas eventualidades, sinto prazer em programar, ter a capacidade de escrever um programa de computador que sempre há de resolver determinado problema é algo que considero mágico. Saber que o problema está pra sempre resolvido e que se for necessário resolvê-lo for mais uma vez basta executar o programa criado é algo que me satisfaz bastante. Programar é algo que me motiva, ganho certos dias de minha vida simplesmente por ter aprendido algo novo relacionado à programação.

Hoje não tivemos um bom treinamento, eu cheguei tarde e o simples exercício que fizemos acabou nos tomando a manhã inteira. Mas conseguimos resolvê-lo e o programa está feito, ainda assim eu sei que há arestas a serem aparadas e já aqui em casa consegui observar certos traços no algoritmo que o tornam um tanto deselegante, como a adição desnecessária de certas linhas de código. Pra mim o interessante não é resolver determinado problema, mas sim resolvê-lo da maneira mais eficiente e elegante possível, é esse o tipo de pensamento de um verdadeiro hacker. Assunto esse (hacking) que eu desejo comentar posteriormente com um pouco mais de clareza e tempo.

Já a algumas semanas eu venho estudando C++ (uma linguagem de programação) todas as noites, mas ainda assim não estou satisfeito com o rendimento adquirido até aqui, tenho me travado bastante com problemas simples de lógica, coisas que sei que sou plenamente capaz de resolver. Detesto ver alguém bancando o inteligente pra cima de mim ainda mais quando sei que sou capaz de resolver o problema sozinho, por conta disso me esforço pra sempre saber mais. Muito provavelmente ou meu baixo rendimento se deve à - mais um vez - má administração do meu tempo. Geralmente quando me sento diante do computador pra estudar estou cansado e sem a atenção e clareza necessárias pra resolver problemas ou estudar qualquer coisa. A partir de hoje pretendo administrar melhor a minha jornada de sono e tomar posturas que me permitam pensar com mais clareza ao enfrentar desafios de lógica. Quem sabe assim eu não me torno um grande programador no futuro?

Bem, com boas perspectivas ou não eu tenho seguido em frente nessa minha contraditória vida. O que importa agora é que tenho feito algo que me interessa e motiva, tenho lapidado a minha mente todos os dias. Aprender, descobrir e se aprofundar no mundo do conhecimento é algo precioso e o fabuloso e oculto mundo do conhecimento é capaz de tornar a vida de alguém melhor.

Ainda que hajam muitas coisas a serem esclarecidas eu sinto que, mesmo com toda a sua frigidez, o pensamento lógico e estruturado é capaz de me confortar muito mais que o mais quente dos abraços. Porque ainda que a lógica e o conhecimento sejam coisas frias e cruéis, não se esvaem de um dia para o outro, são coisas eternas e imutáveis. Como tudo aquilo que é verdadeiro.

Benjamim

Benjamim é um romance escrito por Chico Buarque, em suas páginas vive uma história incomum e que de certa forma me acompanhou enquanto eu passava por uma experiência desagradável. A cópia que possuo é uma que afanaram da biblioteca de uma escola municipal, ou estadual - não sei bem ao certo - e me deram. Acredito que esse tipo de atitude é um tanto reprovável e que furtos como esse são coisas um tanto tolas, se bem que, muito provavelmente isso não foi um furto, possivelmente os livros que ganhei apodreceriam intocados nas prateleiras de aço frio e nenhum dos noobs que lá estudam ou estudaram haveriam de aproveitar ou desfrutar de uma leitura como essa, mas enfim, possibilidades são muitas. Ético eu não sou, o que importa é que tenho o livro e uma interessante experiência ele me proporcionou.

Não sei muito bem o motivo específico disso tudo, mas parece que por estas terras todos adoram chupar as bolas do senhor Francisco Buarque, como se de certa forma ele fosse uma genialidade cultural encarnada, algo sobrenatural e fantástico, todos o amam por aqui. Eu, seguindo a minha natural tendência, não sou apreciador da obra deste cidadão, não a conheço, não sei do que ele costuma falar e tampouco me interesso por tudo isso. Esse gênero de música, a dita popular brasileira, em nada me atrai.

Ainda assim eu tenho um livro escrito por ele, há muito tempo tenho, mas sempre interrompia a leitura, me entediava por demais. Início deste mês eu comecei a lê-lo, e em nada o achei tedioso, enfadonho, chato nisso ou naquilo, a leitura me atraiu bastante e foi um prazer ler esse bagulho.

Benjamim é um homem tremendamente solitário, um tanto esquizofrênico e sofre de uma espécie de amargura silenciosa, sobretudo um personagem interessante. Houve certa mulher em sua vida que ele jamais foi capaz de esquecer, Castana Beatriz, menina mimada filha de um pai rico e um tanto quanto dominador, embora isso seja apenas uma suposição minha, não é algo muito claro no livro. Acredito que Castana Beatriz tenha sido uma exceção dentre tantas mulheres que já haviam passado pelas mãos e vida de Benjamim Zambraia, que era modelo fotográfico, homem bonito e galã. Conforme o livro esclarece, por algum desconhecido motivo Castana Beatriz desaparece, tão somente.

O tempo em todos deixa suas marcas e com Benjamim não foi diferente, o tempo o marcou também e os grisalhos nele chegaram ainda que fosse relativamente jovem. As câmeras não o abandonaram, sempre estavam em sua mente, lhe vigiando e observando, registrando tudo, e assim como elas também havia Castana Beatriz, escondida, perturbando-o. Mas ele estava só e sua vida era fria e sem graça, como qualquer outra. Ela jamais voltaria.

Certo dia num restaurante, ele avista uma mulher que em muito se parecia com Castana, isso o perturbou demasiadamente. Através de caminhos sinuosos e alguns recursos de roteiro ele entra na vida dessa mulher que avistou e suspira profundamente ao se notar vivendo Castana Beatriz novamente, Benjamim rejuvenescera. Ao fim do livro ela o mata e ele retorna à sua antiga solidão e frieza, mas não em vida dessa vez. Benjamim está morto e não houve final feliz.

Caroline fez algo semelhante comigo. Mas diferente de Benjamim, eu ainda vivo.

E assim eu encerro esse texto medíocre que fui forçado à escrever, chega disso.

Devaneio Breve

Ainda a pouco eu estava imaginando uma história, uma baboseirinha qualquer que eu poderia muito bem transformar em texto, salpicar alguns floreios, ponderar umas vírgulas e parágrafos e - no fim - me sentir satisfeito por ter escrevido algo. Me enganando assim, mentindo pra mim ao dizer que estaria escrevendo, quando na verdade daria continuidade à mais um clichê tolo daqueles que se sentem escritores.

Eu não me sinto escritor.

Pensei numa história feliz, uma em que havia um casal num lugar em que ninguém mais havia, tão somente os dois, à beira de uma praia, vivendo um dia incrível, único e somente dos dois. O que me faz lembrar de uma cena, uma das últimas de Inteligência Artificial onde o robô garoto passa um único e último dia com quem - eu presumo - mais amava, a mãe. Lindo isso, humano, frágil, fresco e boiola, bonito de qualquer forma.

Cheguei a começar algumas linhas, ia descrever o quão imbecilizado e feliz ele ficava por estar vivendo aquele dia, do lado dela. Um dia único, curando ao poucos uma melancolia que com ele já caminhava por um certo tempo. Seria lindo, isso - é claro - se eu tivesse as habilidades necessárias pra descrever um dia assim, em todas as suas pormenoridades e sutilezas, sendo capaz de transmitir a gigante sensação do mais próximo que ele - esse dito personagem - já chegou de ser feliz.

Não sei muito bem ao certo o motivo, mas resolvi não escrever sobre isso. Talvez eu não soubesse como, talvez simplesmente fosse algo fora de propósito e tom.

Comecei a pensar nisso, me pareceu extremamente tentador viver um dia assim, um dia inteiro. No meio do mato, numa praia, ou num apartamento, preparando qualquer porcaria pra comer, assistir algum filme, beber algo. Do nada essas coisas de gente feliz começaram a me atrair, comecei a querer isso.

Acho que isso tudo deve ser frescura minha, é... deve ser isso mesmo.

DESABAfo.

Entre versos não há carícias
Nesses versos morreu a vida
São linhas escritas por nada
Sentimentos guardados numa tecla
Paixão virtual, solidão acalentada
Essas luzes incandescentes
Luzes num quadrado morto
Espalham-se pela sala
E refletem nos rostos apagados

Alguém, há um certo tempo atrás, me escreveu isso. Ela possivelmente devia estar sentindo algo por mim, acredito que eu também sentia uma leve paixão por ela na época. Leve por que eu, com o tempo, desenvolvi o hábito de espantar esse tipo de sentimento, medo do fracasso. Não medo em si, apenas receio em sentir o troço ruim que o fracasso costuma carregar nesses casos, uma dor que só pode ser definida como escrota. Enfim, nada aconteceu. Possivelmente com o tempo ela deve ter observado maiores detalhes da minha personalidade, deve ter - de alguma forma - me conhecido um pouco mais, e infelizmente é nisto que reside o problema.

Eu acredito que justamente o fato dela ter me conhecido - ainda que minimamente - melhor, acabou por decepcioná-la. Hoje em dia eu me sinto mal simplesmente por isso, porque tenho tido provas de que sou decepcionante. De que eu poderia hoje ter tido - ainda que, possivelmente breves - relacionamentos mais profundos com gente que eu de certa forma desejei, e eu costumo ser feliz quando tenho aquilo que quero.

Ainda recentemente, após "ter perdido a compostura", como me disse um certo amigo, eu acabei forçando a barra e vendo algo que reafirmava aquilo que eu acabo de dizer que sou - ainda que de certa forma apenas - decepcionante. E hoje, agora, eu me sinto só. Eu perdi quem hoje poderia estar comigo e, provavelmente, me ajudando. Eu sou humano, tão fraco quanto um; preciso de outro fraco do meu lado pra que assim a gente seja forte, ou simplesmente morrer sendo fracos mesmo, mas felizes pelo menos.

Certa feita eu vi uma fraca, de uma tristeza sem cura, d'uma fragilidade imbecil, sofrendo por gente idiota, por isso fraca, mas ainda assim muito bela na sua fraqueza, tão humana quanto eu. Mas como eu disse, costumo ser decepcionante. Hoje eu sou um fraco sozinho, e ao que parece ela ficou mais forte. Tanto que costuma me ferir um pouco. Eu perdi.

Eu me devo desculpas, e vou ter que continuar me pedindo desculpas até morrer, porque - inafordunamente - eu sou assim. Isto faz parte daqulo que sou, ainda que eu desconheça o que de fato eu venho a ser. Vou continuar ter que me pedir desculpas quando, sem avisar, um medo sem muito sentido me acordar durante a noite e eu não ter a quem ligar. Não ter como escutar uma voz que me acalme. Mas é muito simples dizer que eu não sou humano, apontar o dedo pra mim e dizer que eu sou intransigente, que não entendo os outros. Tolo você.

É, tolo sou eu.

Olhem só pra mim, "perdendo a compostura" e sendo um "idiota".
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