Dicotomia

Eu quero fumar um cigarro do alto dum prédio vendo o Sol se pôr. Talvez na companhia de alguém que pudesse ter uma conversa boa comigo, comigo de fato. Dificilmente alguém conversa comigo, geralmente conversam com outra pessoa que está em mim e que parece que sou eu mas de fato não é. É uma outra pessoa forjada por comportamentos alheios, um outro alguém que absorveu costumes, expressões e trejeitos de outros. Mas não sou eu.

Eu costumo ser apenas quando estou por aqui, ou na grande maioria dos momentos em que estamos sós, nesses momentos sim, eu costumo ser. Eu não falo gírias, eu não sou empolgado, na verdade costumo ser um tanto frio e mal humorado. Odeio uma porção de coisas e geralmente sou bastante intolerante. Por conta dessa intolerância compreendo perfeitamente que não me tolerem, e por isso, eu não costumo aparecer, costumo ficar por aqui e deixar o babaca escroto conversar, rir e fazer tolices. Ele faz tolices demais, logo, nós fazemos tolices demais. Afinal, eu sou ele e ao mesmo tempo não sou. Enfim, viadagem.

Eu detesto quase tudo que a maioria das pessoas que conheço gosta, e certas coisas eu mais que detesto, abomino. A vantagem em se haver um outro de mim é que esse outro nos torna um tanto mais flexíveis, pessoas passíveis a um convívio. Não fosse esse babaca seria complicadíssimo conviver comigo, principalmente porque eu sou um tanto detestável. Sou extremamente egoísta, me aprecio muitíssimo, embora não ignore as muitíssimas falhas e ranhuras que existem em mim, ou em nós.

Gosto de mim porque, eventualmente, me surpreendo com o que faço. Observo que um ser tão cheio de mediocridade é - ainda assim - capaz de certas coisas prodigiosas vez ou outra. Contudo, não esteja você a pensar que aquilo que é prodigioso pra mim o venha a ser pra você. Pra mim, há prodígio em pequenas coisas. Eu aprecio muitíssimo o meu idioma, a Língua Portuguesa, adoro escutá-la e o faço sempre que posso, desde que - é claro - seja bem falada, pronunciada, pontuada - sou um tanto chato no que nisto tange. E este que somos nós vez ou outra escreve algo que gosto. Acho prodigioso que ele escreva, porque só quando ele escreve é que eu surjo e assim, nós - que somos, ao mesmo tempo, ele - conversamos e podemos ser de fato quem somos, um.

O que quero dizer é que eu, sou mais que apenas um homem, sou dois. E destes dois o que mais aprecio é este que sou eu agora, porque o outro que também sou eu não costuma ser muito interessante, limitando-se a ser um idiota passível às idiotices de quem é jovem. Tristemente, este outro que sou eu é o que mais aparece, é o que mais vive e é. Ele sempre está quando há alguem do lado, numa roda de amigos, é sempre ele, um empolgado medíocre e pouco inteligente, covarde e mal sucedido em quase tudo quanto se põe a fazer.

E eu nunca estou, ou sou, quando há alguém, de maneira que nunca há quem converse comigo, porque sempre que estamos com alguém eu fico mudo e quem fala é ele - que não é de falar algo que se deva levar a sério. Por isso eu quero conversar com alguém, quero que alguém me veja e perceba que eu existo, que nós não nos limitamos a apenas ele, que há mais que ele, há a mim também e eu sou mais que ele, que não passa de um tolo. Quero que alguém me veja e esqueça que ele existe.

É uma pena que eu só surja quando estamos aqui e por aqui pouca gente vem. Seria um prêmio ver o Sol se por fumando com alguém, seria um prêmio conversar, seria um prêmio saber que alguém me conhece.

Isso vai acabar, daqui pra frente serei apenas eu, porque, o outro, já morto é.
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