Película

Antes de realmente desenvolver minhas ideias nesse texto, acho importante tornar o leitor ciente de alguns conceitos que serão desenvolvidos no seu decorrer. Quanto aos leitores que já são familiares aos tais conceitos, lhes aconselho a prosseguir calmamente com a leitura, sem o salto de linhas, pois assim observarão a minha interpretação sobre suas definições, coisa que é um tanto subjetiva.

No jogo de RPG Lobisomem: O Apocalipse, a Película é a barreira existente entre o mundo material, este onde habitamos, e a Umbra, que é o mundo espiritual, habitado por entidades místicas com nível bastante variável de poder. Neste jogo, os lobisomens, mais conhecidos como Garous, são criaturas que vivem com os pés em ambos os mundos, tendo portanto, a habilidade de atravessar a película e caminhar pelos diversos planos da Umbra. Um desses planos é a Umbra Virtual, que deu origem ao título deste blog.

Boa parte da função de um lobisomem na sociedade Garou, bem como sua própria personalidade, é definida de acordo com a fase da lua no dia de seu nascimento, isto é, o seu augúrio. Os signos lunares constituem os arquétipos de personalidade que são a base para a construção e interpretação de qualquer personagem no jogo. Dentre esses signos existe o Ragabash, que é o correspondente à lua nova. Garous de tal signo são os menos irascíveis, mais brincalhões, certas vezes são os advogados do Diabo, são sagazes, inteligentes, grandes questionadores, sua eficiência em batalha se dá pela sua habilidade com a mente, não com o corpo. Entretanto, existe a outra face do garou ragabash, que pode ser um manipulador exímio, um furtivo assassino impiedoso ou um garou cheio de rancor, que é gerado toda vez que sua voz é emudecida pela brutalidade dos ahrouns, garous do signo guerreiro. 

Mas ao meu ver, por trás de todo ragabash existe um silencioso observador da realidade, que guarda apenas consigo certas impressões que os outros não observam. A fúria nos ragabash é menor porque Gaia, a mãe criadora, sabe os filhos que tem. Um ragabash enfurecido é algo que se deve temer bastante.

Nos dias de lua nova as características do signo ragabash são realçadas, estando ele mais propenso a ser questionador, manipulador, furtivo etc. Ao atravessar a película, um garou se sente mais livre, forte e mais próximo de seu lado menos conhecido, o espiritual.

Ocasionalmente, quando me embriago, me sinto um ragabash, numa lua nova, após atravessar a película. E mais ainda, pareço um ragabash que esqueceu ou ignora a ordem do mundo e resolve vomitar todas as impressões que costuma carregar silenciosamente. A fúria acumulada é posta fora, mas diferente dos pretensiosos ahrouns ela não se manifesta como um ataque violento de destruição, não, apenas se rompe o véu e todos veem o verdadeiro ragabash. Nisto reside um grande problema.

O ragabash interior é feio, cheio de impressões podres sobre tudo. Mas digamos que o ragabash em questão não seja tudo isso e tenda a um arquétipo mais nobre, transformando-se apenas no bobo da matilha. Ainda assim, ele sabe o que carrega consigo, e os outros não gostariam de ver. 

Quando estou muito embriagado tudo sai, e os outros, vendo o que sou, ficam chocados e quase sempre bastante ofendidos com as navalhas de sinceridade que são atiradas a todos os lados. É como se eu atravessasse a película e começasse a correr pela Umbra berrando verdades desagradáveis. Mas o pior é que essas tais verdades não são grandes observações minhas sobre o mundo e as pessoas, nada disso, são apenas os meus desejos cretinos, a minha raiva escondida e a minha megalomania amansada.

Mesmo tendo ciência da tamanha estupidez que tudo isso é, a vontade é não parar de correr, de continuar sentindo esse doce sabor de liberdade e parar apenas nos mansos braços de Gaia, que ama a todos. Essa é uma face muito interessante em Lobisomem, a mãe. Sem a certeza dela, o ragabash e qualquer outro garou seria muito mais amargo, pisoteado pela inevitabilidade de seu destino, que é ser esmagado pela Wyrm na última batalha.

Consigo imaginar o que um garou é capaz de sentir quando reencontra sua matilha após uma jornada umbral solitária. A vontade é abraçá-los, e em silêncio desejar nunca mais cair nos braços da liberdade inebriante, ou seria da embriaguez libertadora?

Doutora

Já fazia algum tempo que ela vinha se esforçando em não romper uma espécie de código de ética profissional que possuía, algo que lhe dizia que era estritamente proibido envolver-se ou desejar – que é o princípio do envolvimento – algum paciente, por mais interessante que esse paciente pudesse ser. Entretanto, já bem sabemos – e ela também – que tem falhado em manter a sua irrefutável conduta ética com este último, ela o deseja e, enquanto ele está lá no divã, ela o imagina, deitado também, mas em sua cama, com o rosto em seu colo. Não sabemos de onde esse desejo surgiu, vamos começar a história assim, com ele já manifesto.

Hoje, menos exigente com o seu já referido código e mais ávida por vê-lo – o paciente, não o código – destrinchando as suas muitas imperfeições outra vez, decidiu conhecê-lo melhor – melhor ainda –, pra que de uma vez por todas se decidisse quanto à prosseguir ou não com aquilo que ela mesmo definiu como “insanidade”. Já não sou mais uma adolescente pra ficar gastando meus pensamentos com paixões, palavra feia essa, “paixão”.

Ele entrou no consultório, aquela habitual camisa de algodão - sem estampas - o jeans surrado e os tênis mais ainda. Queixo cinza, princípio de barba surgindo, ele gostava quando estava assim, não entendia muito bem a razão, mas se agradava em passar a mão pelo queixo quando a barba principiava a aparecer. Já estava achando isso tudo – as consultas – uma certa perda de tempo, não tinha visto nada de novo desde que as iniciara e sequer tinha vislumbrado alguma espécie de solução para o seu recente desânimo. Acontece que o cheiro da doutora era bom e se tinha uma coisa que ele gostava nesse mundo era de cheiros bons. Gostava do cheiro mesmo, não via muito sentido em começar a gostar de alguém apenas por conta do cheiro que exalava – embora isso contasse –, se pudesse separar o cheiro do dono o faria, colocando-o em um frasco e guardando-o num armário do quarto. Mas contraditoriamente, ele não se agradava de cheiros em coisas mortas, como shampus e perfumes. Os cheiros teriam que estar em algo vivo, que se mova. Sendo assim, porque separá-los de seus donos? Ele não gostava das próprias contradições.

– Oi Pedro, boa tarde – ela o recepcionou de pé, como deve ser, com um aperto de mãos. Tudo bem?

– Tudo, bem, quase tudo, né? Afinal, é por isso que eu tô aqui.

– Sim, claro, entendo. Não, não. Sente-se na poltrona, não usaremos o divã hoje. Hoje vai ser um pouco diferente das outras vezes. Não vamos mais seguir aquela outra linha, muito formal e sem graça, vamos ver como a gente se sai numa conversa mais descontraída. Nada de anotações e relatórios, hoje vamos conversar, só isso.

Achando aquilo um tanto estranho – mas positivamente estranho, ele gostou – ergueu-se e sentou na poltrona, era boa. Ela tinha dinheiro pra comprar móveis caros e pô-los num consultório cujo aluguel era caro. Ele é que não tinha dinheiro pra pagar as consultas, mas tinha um nome e isso é o suficiente pra que se crie uma conta em um banco e se a utilize pra fazer dívidas que não serão pagas. Ele não se importava com as dívidas, tanto mais essas que se valiam no cheiro da doutora.

– Eu quero que você me fale das coisas que quer fazer, qualquer coisa, é só dizer.

– Não entendi direito, como assim, coisas que quero fazer?

– Qualquer coisa, seus desejos recentes e os já antigos. Qualquer coisa que você quiser, da mais simples à bizarra, extravagante.

– Acho que entendi. Bem, deixa eu pensar um pouco. Engraçado, a gente quer tanta coisa que nem sabe por onde começar. Certo, ultimamente me surgiu uma vontade de ler um livro de filosofia daqueles bem cabeçudos, que me façam pensar sobre minha natureza e sobre a natureza das coisas ao meu redor, ao nosso redor e, quando as páginas me cansarem e o texto ficar chato, intercalar esta leitura com uma outra. Ler um romance, daqueles que tem prédios e chuva, e seres humanos com seus problemas.

Pausa, botou a mão no queixo e ficou olhando qualquer coisa além da janela. Pensativo, retornou ao que dizia. Ela ouvia tudo com muito interesse, e sorriu apenas consigo ao se lembrar que há não muito havia iniciado a leitura de um livro de filosofia. Uma versão de bolso, costumava ler antes de dormir e nas eventuais filas que enfrentava. Devia ser algo um tanto popular – entre os leitores de filosofia –, Nietzsche talvez.

– Também quero tocar piano. Quero chegar a um ponto em que possa tocar muito bem uma música bacana, sem plateia, apenas eu satisfeito com o que posso fazer. Tocar uma música que ouvi em Le Fabuleux Destin d’Amelie Poulain.

– Em o quê?

– O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, é um filme.

– Ah, sim. Eu conheço, continue.

– Quero ser entrevistado, quero que me perguntem coisas sobre algum bom livro que escrevi, não que eu já tenha escrito algum, quero dizer, tô falando de uma realidade hipotética. Um que fez a crítica ficar doida, os que defendem e os que detestam, e dentre os que detestam, aqueles que acham toda a obra nada mais que a petulância grafada de um jovem escritor. Que palavra bonita, grafada.

– Sim, é.

– Quero almoçar em algum lugar com piso de madeira e vista pra água, rio ou mar. E neste almoço quero a companhia de alguém bonito, que fale pouco e me permita aproveitar a beleza do momento, bem como a beleza da própria pessoa. Isto me faz perceber que admiro um tipo muito peculiar de gente.

– Qual tipo?

– Aquelas que são como quadros.

– Quadros, como assim?

– Sim, quadros, obras de arte. É o tipo de gente que você deseja por perto, sabe? Mas pra admirar apenas, porque afinal, quadros não falam. Mas apesar de não falarem, estão lá melhorando incrivelmente o ambiente, te fazendo pensar, quando não, te fazendo sentir-se bem, apenas. Mas tem também os quadros ruins. Tem quadros que são feios, que deixam o ambiente desagradável. Tipo aqueles abstratos, que não passam de um enigma escancarado na parede da sala. Não gosto de mistérios, gosto de boas explicações. Acho que é daí que vem meu desapego pela poesia, que não passa de um arranjo de palavras pra esconder algo. E os poetas não passam de gente que não sabe se explicar, ou que quer ser percebido pela estranheza desses seus arranjos.

Outra pausa, pensativo mais uma vez.

– Eu quero estar numa daquelas cafeterias com cadeiras próximas às suas janelas, enquanto uma chuva torrencial atormenta a cidade lá fora. Beber um bom café enquanto vejo a água cair e começo a pensar em mim e nas pessoas que por mim passam ou passaram.

– É? Que pessoas? Se não te incomodar dizer quem elas são, é claro.

– Não, tudo bem. Bem, não sei ao certo, várias. Algumas que conheço da faculdade, as garotas que já peguei, você.

– Eu, como assim, eu? – ela gelou enquanto emitia aquele riso de constrangimento.

– Sim, você. No cheiro bom que você tem.

– Nossa, obrigada – ela disse após sorrir, um tanto sem graça. Mas enfim, vamos lá, continue.

– Quero silêncio, mas não um silêncio sepulcral, quero silêncio com vozes, mas vozes suaves, que se manifestem pouco. Que não falem da vida alheia, que tratem de ler e lendo se percebam deprimentes e após se perceberem deprimentes, que mudem. Quero largar a minha soberba e deixar de me sentir superior aos outros, não importa quem seja. Gente é um negócio importante, muito importante.

– Que bom que você percebeu isso.

– Valeu, obrigado. Quero ser tão interessante quanto os personagens bacanas que vejo nos filmes. Nos filmes bons, é claro. E tipo, também quero que as pessoas não digam mais “a personagem” e sim “o personagem”, é mais bonito. Quero falar francês. Quero uma francesa com seu vinho e sua pele branca, bem como seu corpo magro e sua literatura.

Ele ficou calado por uns dez minutos, com a mão passeando pelo queixo e o olhar distante, admirando alguma coisa no carpete. Ela esperou pacientemente.

– Acho que é só, isso é o que me veio à mente por agora.

– Nossa, que bonito. Você tem desejos simples, mas muito belos, muito mesmo – disse meio que perdendo a voz aos poucos, como quando estamos a principar um devaneio. Bem, você é o meu último paciente por hoje. O que acha da gente tomar um café lá embaixo – disse com um sorriso.? Tá chovendo bastante lá fora e a cafeteria é boa, e, outro detalhe, as cadeiras são próximas das janelas. E aí, algum problema pra você?

– Não, nenhum. Eu adoraria – sorriu.

Email

from:    virtual.adept@giga.com
to:      truthseeker@umail.com
date:    Fri, Sep 30, 2100 at 9:27 PM
subject: Re: No que você tem pensado Fred?

Você tem que ter brevidade em tudo aquilo que faz, ser veloz, rápido, furioso, intenso e completamente desproporcional e sem sentido, isso, isso mesmo. Um "rush", apenas um "rush". Oh, you were born to do it "broda", for sure you were.

Como que é isso, como será que é atingir? Como será que é chegar lá, àquele interessante estado de perpétuo? Será que é perpétuo mesmo? Por que, veja bem, se você for parar pra pensar um tanto mais a respeito - mais do que você já costumeiramente faz - verá que a vida não faz sentido nenhum, digo, essa merda toda é completamente sem propósito. 

Porra, tu nunca se sentiu como um maldito robô com uma espécie de supercomputador no crânio? Apenas realizando algoritmos, controlando o teu corpo e mantendo-o, porque afinal, existe um preceito na memória deste teu computador que diz que manter o corpo é essencial, é uma tarefa prioritária, tanto que - se você observar bem - todos os outros algoritmos acabam convergindo pra isso. Manter o corpo é essencial, por algum desconhecido motivo.

E após todo esse conjunto básico de operações relacionadas à manutenção da tua vida, vem o que - ao meu ver - fode tudo, aquilo que, sabe, que foge do básico, que extrapola essa porra, aquilo que no final das contas me faz ficar pensando nesse tipo de coisa ocasionalmente - caralho, advérbios, muitos e sempre.

São as dúvidas cara, parece que existe um outro gênero de processos - ou algoritmos, como queira - que se destinam a melhorar o atual conjunto de processos, quer dizer, é como se os processos pertencentes à este conjunto - chamemo-lo de conjunto de algoritmos evolutivos - convergessem todos aos próprios algoritmos. Me entenda, é como se o teu computador estivesse pensando sobre si mesmo - o que é bem absurdo, se você observar bem - e tentando arrumar novas maneiras de fazer coisas mais que apenas manter o próprio corpo.

O computador "deseja" utilizá-lo pra outras coisas e no final acaba se perdendo e ficando preso em si mesmo, porque após observar estes novos usos não vê sentido neles. E tudo isto porquê? Porque não há nada em nossa memória original que nos diga que isto é essencial, a gente só dá sentido àquilo que veio com a gente, o resto é tudo engano. É aí que tu tá fodido, quando tu percebe que nada faz sentido, só sobreviver, sobreviver é tudo, vivemos pra viver. Meio foda isso, foda demais até.

Canteiros

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa 
Menos a felicidade

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até amanhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vido, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de maço fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.



Varanda

Por algum desconhecido motivo ele adorava aquele lugar, realmente adorava estar ali, observando as pessoas na calçada lá embaixo, quando não, observando o horizonte vez por outra e atentamente ouvindo aquela perturbadora quantidade de ruídos sem sentido que só um vespeiro – como a cidade o é – pode produzir. Ele sentia prazer – não prazer em si, um leve contentamento assim digamos – até no frio do metal e no quão cinza eram o concreto, as paredes, os pisos. Ele gostava disso, e era algo que não compartilhava. Esse tipo de coisa não é algo que se compartilhe, não é o mesmo quando se divide.

Hoje ele estava lá, e num horário que lhe agradava bastante, o pôr do Sol. Vez por outra ele comparava a beleza que havia no pôr do Sol do interior – tentava ressuscitar em sua mente os poucos que lembrava das viagens que havia feito quando criança pra casa d'algum tio ou dos avós – com a beleza do pôr do Sol urbano, daqueles que vêm logo após uma leve chuva, entrecortado por vários prédios. “Não tem coisa mais bonita que isso, não tem mesmo”, ele dizia pra si.

E os pensamentos que lhe ocorriam eram os mais variados possíveis, geralmente com pouca relação entre si – pelo menos é o que pensava, afinal, é um tanto pedante de nossa parte dizer que isso não tem relação com aquilo no que diz respeito a coisas tão desconhecidas como pensamentos o são. A verdade é que dificilmente ele ia ali pra buscar alguma espécie de resposta ou ruminar alguma dificuldade ou tristeza, ele apenas sentia-se bem naquela maldita varanda, com os braços apoiados naquele troço de ferro.

E ele ficava lá, absorvendo o nada por alguns minutos, e nos dias que o desânimo era grande, desejava como nunca que aqueles minutos se alargassem pra ele ficar ali mais tempo enquanto o Sol afundava no canto do mundo, tal qual os seus pensamentos, que afundavam num fosso e ressurgiam num outro dia, que – afortunadamente – costumava demorar a chegar.

Essa última semana foi das mais desagradáveis, os dias passavam rápido, era como se ele se levantasse pela manhã já preparando-se pra tornar à cama pela noite. Os dias eram improdutivos e ele passava por eles sem muita relevância, sentindo-se uma espécie de parasita unicelular mergulhado n'alguma gota de água. Detestava semanas como essas, dias como esses, até mesmo horas assim ele abominava. Era aquela ambição gigante e aquele enorme desejo de reconhecimento esmagando-o outra vez, lembrando-o que o tempo estava sendo impiedoso e que ele não havia ainda chegado lá – seja “lá” qualquer coisa que os ambiciosos buscam.

Ele sempre ficava assim após esses esmagamentos, e hoje, sentindo-se inútil e com um desânimo por ele mesmo classificado como “maior que a puta que pariu” resolveu tornar à varanda e drogar-se com ela, vendo as demais pessoas movimentando-se, diligentes em suas atividades e espantosamente, satisfeitas ou alheias à mediocridade de suas vidas.

Sentindo-se cansado, pegou uma cadeira, daquelas reclinadas parecidas com as de praia. Sentado, viu uns vasos com algumas dessas plantinhas de apartamento. Vieram vários dias após esse, e vários anos também. Ele se graduou na universidade, virou mestre, doutor, pós doutor, trabalhou, casou-se, teve filhos, divorciou-se, mudou-se. E após tudo isso, os esmagamentos não cessavam, vez ou outra surgiam com a mesma ladainha que ele já conhecia bem.

Cansado, tornou-se jardineiro e não haviam mais esmagamentos.

Encontro Nacional da Legião Brasileira de Capoeira

A minha idéia a princípio era escrever uma espécie de texto que enfatizasse - um tanto dramaticamente - o quão contente eu me sinto por ter sido batizado e recebido a corda amarela na Capoeira, um texto que de certa forma demonstrasse o quanto eu esperei por isso e o quanto é bom se perceber como alguém capaz. Atingi meu objetivo inicial, já jogo Capoeira.

Acabei desistindo da idéia, pois me percebi muito dramático com isso tudo e resolvi por fim fazer apenas uma relatório simples de como foi todo o evento, o encontro nacional de membros da Legião Brasileira de Capoeira, em Pacajus - Ceará.

O evento durou dois dias, sexta e sábado, mas cheguei apenas sexta à noite. Após ter jantado e me alojado, enchi a cara de cachaça com alguns colegas e fui dormir lá pelas cinco horas da madrugada. Durante a manhã de sábado houve um aulão com o mestre Catitu, de São Paulo. Eu estava fodido de ressaca e acabei não fazendo muito bem os movimentos que ele ensinou, mas foi interessante ainda assim.

Durante a tarde houve o que todos mais aguardavam, o batizado. Foi feita uma roda logo após aquele tradicional falatório que antecede todo evento apoiado por políticos e micro empresários, jogo leve, só Benguela. No que isto finda teve início o batizado do então mestrando Moleza, que pareceu estar muito calmo diante do fato de ter conseguido algo que poucos conseguem, a graduação máxima, algo que lhe levou cerca de vinte e cinco anos de jogo, agora ele é um mestre, mestre Moleza. Talvez o pensamento dele diante disso tudo seja muito mais simples que o meu, e talvez seja também esta minha mania de dramatizar certas coisas manifestando-se outra vez. 

Após algumas sequências de batizados dos que atingiram graduações mais elevadas houve uma pausa para o batizado das crianças que fazem parte de um projeto social promovido pela prefeitura de Pacajus, todos alunos do professor Valério, organizador do encontro. Eram muitas crianças, demorou bastante pra que todas jogassem. O que mais me surpreendeu foi a presença de uma menina numa cadeira de rodas, que faz parte do projeto apesar da sua deficiência, ela pareceu bem contente e animada por estar brincando com todos. A princípio botaram-na no chão para que esboçasse alguma esquiva diante dos movimentos dos professores e mestres que jogaram com ela, logo após a puseram na cadeira e brincaram com ela empurrando-a em direção ao adversário em maneira de representar alguma espécie de ataque e recuando-a nos momentos em que o adversário atacava. Foi bonito.

Já no fim do evento, após ter me cansado de estar em pé e bater palmas fui batizado com a última leva de alunos - a ordem de batismo é dada de acordo com o nível de graduação dos alunos, menos graduados por último. Joguei duas vezes apenas, sendo que na primeira soltei uma meia lua um tanto baixa que atingiu a cabeça do mestre que jogava comigo, nada muito sério, mas fiquei sem ação e desorientado, voltei a me movimentar normalmente após ele ter me dado um cascudo leve pra que eu prestasse atenção.

O resto são detalhes, alguns feios, como o aluno que desmaiou e ficou tremendo no chão após levar uma meia lua na cabeça, uns tapas cheios de raiva e maldade trocados entre um mestre e um iniciante, uma moça que levou um chute na cabeça, algumas coisas que ao meu ver descaracterizam a Capoeira - deixa de ser jogo e vira briga. Mas também houveram uns outros belos detalhes, uma preta do corpo bonito e do cabelo cheiroso - vou sentir saudade daquele cheiro - que apesar de não ter um rosto muito belo se torna preferível diante de umas brancas um tanto mais bonitas. Também teve uma loura que se mostrou bastante simática no início mas passou a ficar puta com a minha cara depois que peguei minha cachaça e saí do alojamento pra curtir na cidade. Ela achou mais interessante beber a minha bebida enquanto sutilmente se insinuava pr'um musculoso do Piauí, não falou mais comigo após isso, mas haverão outros encontros. Também teve uma outra magrinha que passou a me tratar diferente - pra melhor - depois que eu fiquei sóbrio e tomei banho, mas tudo bobagem, tudo detalhe. 

A luta continua, literalmente. 

Conflito Insolúvel

Estava pensando na maneira como meu professor de Cálculo costuma tocar suas aulas. Depois de um pequeno evento recente, desisti completamente de tentar sanar qualquer tipo de dúvida com esse cidadão. Ele, basicamente, não é muito disposto a incentivar a empolgação e a curiosidade de seus alunos - bem como esclarecer determinadas dúvidas -, corta qualquer tipo de manifestação com um "vá estudar". E a sua já tradicional arrogância é um negócio um tanto desagradável.

A princípio pode parecer que estou choramingando porque o professor malvado não me deu bola e sou um menino carente e revoltado - ainda que eu ache que não, no final das contas pode ser bem isso mesmo. Acontece que fiquei um tanto puto com a cara desse desgraçado e tanto mais puto ainda comigo, que tendo um rendimento acadêmico pífio - dando jus, sem muitos exageros, ao famigerado título de burro, jumento, equino, incapaz - acabo não tendo o respeito necessário pra ser ouvido ou questionar o que dizem. É um tanto meritocrático esse meio acadêmico, se você não tem mérito - que é concedido de acordo com esse sistema juvenil de avaliação - você não passa de um Zé Roela. E pelo visto, é isso o que tenho sido, um José.

Enquanto eu estava puto, caminhando pela universidade, comecei a pensar em como a maioria dos animais - não sendo nós muito diferentes - costuma resolver seus conflitos: na base da porrada. Pensei "porra, eu tô puto com a cara desse filho da puta, eu deveria sentar a porrada nesse velho desgraçado e mostrar quem manda nesse caralho". Mas, feliz ou infelizmente, não estamos em uma selva e esse tradicional e natural método de se resolver desavenças não é muito bem visto por essa entidade invisível a quem alguns costumam chamar de "sociedade". Mais algum tempo depois eu pensei "pensando bem, seria uma covardia do caralho tentar resolver qualquer coisa na base da briga com esse velho, eu poderia matar ele de tanta porrada. Eu sou um cara novo e ele é um velho que não aguenta um cascudo". Sendo assim, o caminho ideal a tomar seria adquirir o respeito que desejo jogando o jogo meritocrático da academia, me afundar em alguns livros, trepar com os números e mostrar que sou foda e digno de consideração.

Aí é que está outra covardia, porque por mais que eu estude pra caralho, tire ótimas notas e prove a todos esses filhos da puta que não sou um bosta, nunca chegarei nem perto de ter uma luta justa com o professor. Ele sempre vai estar à minha frente, ele já estudou muito, passou por todas as dificuldades relacionadas ao estudo e à vida acadêmica e superou todas elas. Um tema que pra mim hoje é complexo e novo, pra ele  não passa de uma velha brincadeira pra crianças. Nisso, do alto de todo meu raciocínio eu indago "tô na piroca mermo, não posso resolver as coisas do jeito 'natural' e não posso disputar intelectualmente com ele. Que que eu posso fazer?".

Logo após isso eu finalizo concluindo: "provavelmente o mais sensato seria retirar-me à minha ignorância, xingar muito no Twitter e escrever um 'desabafo' no meu bloguinho".

Quero Ir À Churrascaria Com Minha Família

Essas letras são um buraco cheio de falsa segurança e ilusões das piores, pois são ilusões baseadas no desejo de quem escreve. São refúgio pra homens covardes, irresponsáveis e quase que sempre, frustrados.  

Eu quero mudar a vida da minha família, tirá-los desse bairro cheio de gente ignorante e violenta, afastá-los dessas ruas sujas e dessa miséria deprimente; lhes proporcionar uma vida tão agradável que o passado ruim passe a ser um leve resquício de eventos pouco importantes e deixe de ser esse conjunto de cicatrizes, visíveis sempre que se olha no espelho.

Mas eu preciso de muita coisa pra conseguir isso, e quase tudo nessas muitas coisas é algo difícil de se conseguir. Ainda recentemente eu planejei seguir carreira na ciência, tornar-me um pesquisador e habitar os ambientes acadêmicos,  estar na vanguarda do conhecimento. Mas agora, refletindo melhor, eu percebo que isso será um processo lento, lento demais, minha família não pode esperar tanto, e por tão pouco. Ser professor universitário e eventual pesquisador não é algo que vem logo, e a remuneração que traz é pouca.

Muito provavelmente vou ter que fazer um concurso público pra empregos com boa remuneração, e é justamente nisso em que está o problema, no emprego. Me ocorre a quase certeza de que será uma tarefa desagradável, mecânica e sem desafios interessantes, um cargo administrativo medíocre qualquer. Mas o dinheiro é bom, e pode me dar aquilo que eu quero: uma casa boa - um apartamento talvez - num lugar bom, o carro que não temos, diversão em família n'alguma churrascaria sem hora pra voltar, pode me fazer amigo dos meus irmãos, pode me dar o respeito deles. O provedor é sempre respeitável, ainda que venha a ser um canalha. Aquele que te provê daquilo que precisas merece teu respeito.

Antigamente eu ficava mais consolado quando pensava a respeito destes assuntos, eu orava - às vezes em pranto - por alguma orientação, por oportunidades, por inteligência e visão, pra enxergá-las e saber lidar com elas. Hoje eu não tenho mais isso, o que vem a ser um tanto ruim. 

Não existe ninguém ao meu lado, não há entidade alguma que esteja a velar e olhar por mim porque sua graça me atinge, não existe isso. Eu estou só, e não preciso de calos nos joelhos, mas sim de dinheiro.

Não fico muito contente ao pensar que meu pai vai acordar cedo logo mais, preparar o café e ir de bicicleta à barulhenta e fedorenta feira onde conserta e vende relógios. Tal qual a minha mãe, que fará o almoço um tanto às pressas pela manhã pra logo em seguida ir ao hospital aqui perto de casa onde é técnica em enfermagem. São trabalhos honestos, e me orgulho dos meus pais por isso. Acontece que, direfente de certas divindades, sacrifícios não me agradam.

Percebo que está mais do que na hora de sair deste buraco de letras sem valor e passar a ser um homem de ações. Essas palavras acabam tendo o mesmo propósito das antigas orações: ser um escape onde possa jogar todos os desejos frustrados - e são muitos - e que me faça suportar essa realidade desagradável, arrastando-a até onde for possível.   

Férias

Imaginei que passaria as férias por aqui, afogado em livros e possivelmente saindo pra algum ocasional passeio. Nisto, acabei por pegar uns livros na universidade: uma autobiografia de um "famoso" matemático e um outro sobre uma linguagem de programação em particular.

O primeiro livro, a autobiografia, está em inglês, um idioma que não domino e que me força a utilizar meu particular sistema de aprendizado, o Método da Exaustão. Que consiste basicamente em ler - aos trancos e barrancos -, anotar as dúvidas - algumas palavras obscuras, como "full-fledged" -, saná-las n'algum dicionário ou com alguém que conheça o idioma e prosseguir lendo.

Mas os planos mudaram, viajo domingo de volta à família e amigos. Os livros irão, naturalmente, mas a leitura não será mais aquele solitário afogamento suposto a princípio. Terei outras belas atividades - minha empolgação e ansiedade são claras, mas sei que as ditas atividades não serão tão "belas" assim. Mas tal como a fome tempera a comida a saudade embeleza a companhia dos que fazem falta.

Também leio O Senhor dos Anéis, extenso, mas capaz de me afundar num interessante mundo novo e me deixar passeando por lá durante agradáveis horas. E como a saudade tem sido maior estes dias, me faz recordar as sessões de RPG com os amigos. Enfim, este Julho de 2011 se apresenta um promissor mês.

Alterações

Fiz pequenas alterações no texto anterior, substituí algumas frases e corrigi alguns erros de pontuação. Não que a pontuação tenha sido imprópria, no sentido de estar em desacordo àlguma regra destas tantas que há por aí, mas é que não dava o ritmo que eu desejava ao texto.

Estava bêbado quando o escrevi e por conta disso pus nele coisas que hoje - na sobriedade - me desagradam. Agora creio que o deixei num ponto um tanto mais aceitável, ou melhor dizendo, menos inaceitável.

Também, no intuito de levar isto aqui um tanto mais a sério, pus este blog sob os termos da licença Creative Commons, o que pode ser melhor visualizado no rodapé do site. Basicamente, estou permitindo que os textos aqui escritos sejam divulgados e compartilhados livremente, desde que seja citada minha autoria. E proíbo a sua venda bem como alteração.

José Vicente de Araújo

Existem situações, que por sua vez, são lá um tanto abstratas e - apenas de certa forma - complexas, que tornam um tanto dificultosa ou - talvez seja mais apropriado assim dizer - difícil, a tarefa de descrevê-las. Tal como essa agora à qual me proponho, coisa simples e natural a todos, de duração bastante efêmera e nada impressionante, mas que é capaz de chamar a atenção de determinados desocupados como eu.

Mas antes - e como este espaço é apenas meu - abuso da boa vontade do leitor pra expressar as minhas mais sinceras considerações momentâneas: " ". Estas são elas, não há nada que se diga que já não se tenha dito. Não existem pois, considerações particulares - expressas elas em forma de texto - que já não tenham sido feitas outra fez. É tudo já feito, e sendo já feito nada disso foi suficiente, pois pouco mudou, pouquíssimo se comparado com o "que deveria ter sido". É porque os que escrevem o fazem pra poucos, pra raros abestalhados que acreditam haver algo bom em tal coisa como a leitura - singulares esses idiotas. Portanto, fica pois a minha observação. Não há mais nada o que se faça na escrita, e eu um dia considerei ser grande nisto que se refere ao escrever, tendo tido alguma espécie de "sucesso", acabei por pensar que este seria um possível caminho. Entretanto, ao perceber que este não é caminho algum, apenas um labirinto roto de aturdimentos juvenis, entro em desespero ao perceber que não existe mais nada que possivelmente me faça ser amado por todos.

Mas enfim, esqueçamos estes últimos parágrafos de considerações particulares e retornemos ao assunto principal, à questão que pus em cheque logo ao início.

Fácil não é descrever aquilo que se sente após longa fadiga, quando teu corpo fede o suor do esforço e o calor impiedoso de um sol alheio a tudo tortura a pele que há por debaixo desta roupa espessa, seja ela o jeans moderno ou o tão antigo couro, dos jibões do cangaço. Considerando pois a dificuldade de tal descrição, visualize, apenas veja José Vicente de Araújo neste algodão ensopado que é sua camisa e o jeans vagabundo que é sua calça, não esquecendo é claro das havaianas de borracha preta. 

Pois José Vicente de Araújo apenas senta, cheio de seu cansaço e suor, debaixo desta árvore estranha, que assemelha-se a uma oliveira mas não chega a feder tanto quanto uma. O calor exala de sua pele assim como os pensamentos que perpassam sua mente, quando - absorto - contempla o horizonte, que está tão distante de si, como se nunca - ele, o José - tivesse feito parte disso tudo, o nada.

No horizonte passam coisas em demasia, mulheres com bacias de roupa, homens com sua ignorância e valentia à cabeça e crianças com seus carrinhos feitos de lata  e plástico. Os olhos de José ardem e ele ainda continua absorto, percebendo-se alheio a isto tudo e desejando apenas não mais ser isto: este homem já medícore, de destino medíocre, neste ninho de vespas imbecis. José Vicente de Araújo só quer foder antes dos 21, encher a cara de cachaça e de cigarro após isso - a foda - e morrer, quem sabe contente.

Teresa é uma foda válida, mas há tantas outras, só basta o corpo cheiroso, porque de fedor já lhe basta o seu e o dessa quase oliveira agreste. O Diabo sai de trás da porta e vai atrás d'uma preta da boceta macia e do peito grande pra dar ao José, ficou com pena desta vítima de Jeová.

Cervejas, Baranga e Telefonemas

Tô exausto. Passei parte da tarde e começo da noite resolvendo uns exercícios pendentes pra faculdade. Enchi a cara ontem, e acabei gostando da nova cerveja que experimentei. Fiquei chapado, agarrei uma baranga e liguei pra pessoas com quem não falava havia muito.

Uma delas foi a Caroline, fazia uns dois anos que a gente não se falava. Aconteceu que trocamos uns beijos e confundimos algumas coisas, daí acabamos não nos falando mais etc. Ela surgiu no Twitter recentemente e acabei vendo nisso uma boa oportunidade pra gente voltar a se falar. Deu certo,  eu acho.

Também liguei pra Lorena, uma amiga de internet. A gente já se falou mais no passado, principalmente pelo Messenger, mas de uns tempos pra cá nosso contato tem sido muito restrito. Já tinha o número dela faz um tempo e o álcool me fez criar coragem pra ligar. Também deu certo, foi uma boa conversa. Ela tem aquele sotaque sulista que cai bem em mulheres bonitas e olhudas.

Hoje mais cedo eu me cadastrei num site de idiomas, o Lang8. Tem um método interessante. Basicamente, você escreve textos no idioma que está estudando e os falantes nativos fazem correções indicando possíveis melhoras etc. Sem contar a possibilidade de fazer amizades, treinar conversação pelo Skype ou outro recurso, e talvez - numa remota possibilidade - ver uns peitinhos gringos ao vivo.

Vou me esforçar mais no que diz respeito a estudar inglês, vou usar o tempo livre das férias e estudar o necessário.

Estou lendo A Caverna, do Saramago. Dizer que é bom é redundante.

Já farto das músicas que tenho no telefone, acabei escutando um pouco de rádio, tava passando um programa em que tocavam apenas Aviões do Forró. Até que não doeu, é bem ritmado e alegre. As letras são um primor.

Certa vez eu disse por aqui que as pretensões haviam acabado, menti. Nunca se foram, sempre fui muito cheio delas. Mais recentemente elas têm me destruído, quero ser muitas coisas e acabo sendo nada. Caso clássico, clichê, sentimentalismo de boteco etc. eu sei o roteiro.  Mas um dia isso passa, a purberdade não há de durar tanto assim.

Outro Rascunho Perdido, Agora Encontrado.

Tô num supermercado, frente a um janelão de vidro, observando o horizonte. Certo que algumas construções grotescas embaçam a vista, mas ainda dá pra ver o céu e a copa de algumas árvores.

As nuvens estão batalhando, nuvens brancas contra nuvens negras e, ao que parece, as negras estão vencendo. Logo mais cai a chuva como prova das novas donas do céu.

Um poeta - ou qualquer outra espécie de sentimental - afirmaria que a chuva são as lágrimas das nuvens negras que - agora arrependidas - pranteiam a morte das suas irmãs brancas. Bem, é o que um poeta diria, mas eu não sou poeta e isto é só chuva.

Semelhante àquele tipo de gente que extalta o canto dos pássaros. Pássaros não cantam, eles piam uma série estridente de desagradáveis sons que se tornam mais desagradáveis ainda no início da manhã. Da próxima vez que acordar em meio de alguma piadeira de aves desocupadas vou xingar o primeiro poeta que me vier à mente. O que será um grande erro, afinal nem todos os poetas perdem tempo exaltando florestas e bichos.

Observo meu reflexo no vidro, um rosto um tanto sisudo, queixo coberto por um pouco de barba, um bigode ralo, a farda azul com suor e fedor e um cansaço visível em cada pelo do meu rosto.

Rascunho Perdido Encontrado

Estou cansado demais pra escrever, vou pra cama descansar. A sujeira da boca me incomoda, mas não estou muito disposto a escovar os dentes, também não estou disposto a ler, nem a jogar algum jogo, nem mesmo a ficar ouvindo música.

Em mim, a muita preguiça é um mau sinal. Parece que eu já desisti e quero dormir até morrer, por que a lucidez não é mais interessante. Mas eu ainda não desisti.

Saudade Que Faz Chorar

Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Oi Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Oi Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 

Saudade de Mestre Bimba 
Seu Pastinha e Valdemar 
Saudade de Canjiquinha 
E do Besouro Mangangá 

Mestre Bimba ele partiu 
Para nunca mais voltar 
Mas deixou os fundamentos 
Da capoeira Regional 

Ai! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Oi Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 

Saudade dos grandes mestres 
Da capoeira de Angola 
Saudade de Ganga Zumbi 
E Zumbi dos Quilombos quilombola 

Minha mãinha foi embora 
Foi pro céu com Deus morar 
A saudade me devora 
Saudade me faz chorar 
Um dia no infinito, oi mãinha 
Nós vamos nos encontrar 

Ai! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Ai! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 

A saudade sempre doe 
Seja a saudade qual for 
Saudade da capoeira 
De alguém que tu amou 
Saudade de quem tu ama 
E da preta que te deixou 

Ai! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Mas! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 
Ai! Saudade, saudade, saudade ê 
Saudade que faz chorar 

Desconheço a autoria da música, se a soubesse compartilharia com os senhores, com certeza.

Desde que comecei a jogar Capoeira que esta música me chama a atenção, e agora - mais do que nunca - ela tem um valor diferente.

Recomendo que a escutem, o download pode ser feito aqui

Taí

A imagem de que falei:


Recorte Nº 3

Recortes, vários e sobre assuntos diversos:

Eu não quero falar sobre a morte do Emerson, não mais. É terrível pensar que ele findou como um triste fracasso, fruto de uma série de fatores que fodem o mundo todos os dias. Porra.

***

Os nomes vão mudando... Érika, Jasmine, Amanda, Isabelle, Midiã, Luana, Valdilene, Madlene, Bárbara, Tainah... isto tudo com o passar dos anos. Tem sido assim desde onde lembro - primeira série do ensino fundamental, talvez. Nem lembro mais como se escreve corretamente o nome de algumas delas, de outras eu mal lembro da voz; apenas vagas lembranças, como se fossem fotografias que se movessem, imagens estáticas em movimento – contraditório é verdade, mas eu não quero gastar muitas palavras tentando descrever algo tão abstrato como uma lembrança. No fim é isso que são, algumas páginas do meu álbum de fotografias particular.

Perdi a conta dessas minhas paixões de criança. Quando eu era moleque achava isso bom, gostoso. Parece que achei tão bom que fui carregando pro resto da vida. Só que aí a adolescência me mostrou que é uma merda ser criança.

Coisa de fresco falar “gostoso”. Viadão.

***

Me sinto bem ao lembrar que beijei a Tainah, ainda que tenha sido um beijo sem valor, de despedida. Pensando bem, não me sinto tão bem assim não. Na verdade, eu começo é a rir um pouco da contradição: lembro, acho bom, sinto saudade, me sinto bem, lembro que não teve valor, foi de despedida, foi pena, foi saudade ainda presente, me sinto mal. Não tem como deixar de rir dessa boiolagem toda.

***

Meu tio-avô me trouxe pra casa dele aqui em Maracanaú, bem no pé da serra. Coisa bonita é uma serra, uma montanha verde bem alta, fresquinha, as nuvens encobrem um pouco os cumes mais altos. Fico besta admirando, achando tão soberbo um monte tão verde e tão alto.

Aqui é um fim de mundo do caralho, longe de tudo, por sorte trouxe meu laptop. Todo mundo aqui é crente, em verdade, a igreja fica na casa do meu tio – que é pastor. Acabei assistindo os cultos, meio a contragosto, mas o fiz. Faz tempo que deixei a igreja, não sinto falta.

A casa é um pouco fodida. Paredes sem rebôco, chão de cimento, um pouco esburacado, cheio de terra – dá um trabalho do caralho varrer. Aí, como eu não tenho muito o que fazer, puxo o laptop e fico jogando Battle For Wesnoth. Mas fica aquela sensação escrota, de que parece que eu sou playboy, como se – não custa muito – eu não tivesse morado numa casa onde as janelas eram pedaços de lona e o piso era de barro. Eu sei o que é ser bem fodido, e lembrar disso não me faz muito bem. Me faz pensar na minha mãe, no quanto ela é incrível, e lembrar da mãe estando longe dela é complicado.

Gosto do meu tio, apesar de tudo. Ainda a pouco ele me deu um abraço, daqueles que tiram os pés da gente do chão. Rodamos um pouco de carro pela manhã, Maranguape e Maracanaú. O Maranguape me pareceu estranho, desolado. Acabou me fazendo lembrar daquele texto sobre uma cidade agreste que eu vou escrever, acabou me dando idéias, imagens. Não custa muito e o escrevo.

Provavelmente vou tomar um banho de açude de manhã, de tarde eu volto pra Fortaleza.

***

Eu não quero discutir a natureza masculina com mulheres imbecis, quero que as mulheres imbecis se fodam. Mulher boa faz carinho num homem cansado, massageia os ombros. Serve a mesa.

Mulheres imbecis são terríveis, querem ser inteligentes demais, são todas burras. Podem enfiar esse neofeminismo no cu e se tornarem um bando de lésbicas. Porra, uma mulher que se recusa a servir o marido porque acha isso machista merece uma surra, de cinto.

Mas sou um homem calmo, e nem sempre sou justo. Muito dificilmente bateria em uma mulher, mesmo ela merecendo. Tem horas que qualquer pessoa merece levar uma porrada, homem ou mulher.

***

Teve um estilista aí que foi demitido porque falou que gosta de Hitler e que odeia judeus. Aí uma judia branquela foi falar um monte de merdas sobre amar ser judia e outro tipo de estrume mental televisivo. Tsc.

Vivemos o dito século da liberdade, mas é proibido odiar. Bando de hipócritas.

***

Meus pequenos rompantes de raiva me fazem lembrar que ainda sou jovem, isso é bom. Também me fazem lembrar de uma imagem que vi na Internet certa vez. Era uma espécie de protesto, nele havia um homem todo preto, emcapuzado também. Levava uma bandeira onde se lia: “We're fuckin angry!”

***

Ocasionalmente me surge a vontade de ser escritor, um bem bom, tipo o Saramago. E quando bater a melancolia e a frescura, escrever textos tipo os do Caio Fernando Abreu. Não, nada de Chico Buarque.

Recorte Nº 2

Conjecturas na preguiça:

Hoje acordei com uma gigantesca e enorme vontade de voltar pra rede - sim, por aqui eu durmo numa rede. É que o ventilador de teto fica praticamente voltado pra mim, aí o vento bom mais o frio da noite mais o meu cansaço, costumam me proporcionar noites agradáveis. Hoje foi mais brutal.

Mas eu vim pra universidade; cheguei atrasado na primeira aula e saí antes que ela acabasse. O professor não dá uma boa aula, e eu estava morrendo de sono. Ainda estou. A segunda aula já começou e eu não estou nem um pouco a fim de ir pra lá.

O problema é que bate aquele peso na consciência: "Porra, tu já fez isso antes. Tu sabe como é que as coisas são. Tu se fodeu valendo da última vez, não vacila agora."

Só que quando bate esse pensamento, surge um outro em oposição: "Relaxa, tu é foda. Pega um livro, se mata estudando em casa e destrói na prova. Tu sabes que és um cara inteligente, fica sussa. É só não faltar muito e tá tudo garantido."

Aparentemente, costumo atentar mais ao segundo pensamento. Tanto que a aula tá torando por lá e eu estou aqui, lendo blogs e escrevendo um bocado. 

Às doze vai passar o Rede Social, no auditório de computação. Não sei se fico pra assistir ou se vou logo pra casa, afinal eu já não quero assistir aula mesmo.

Morte

Um primo meu morreu, assassinado. Em verdade, ele não era meu primo, era sobrinho do ex-marido de uma tia minha, mas é como se o tivesse sido. Na infância passei alguns dias - durante as férias escolares - na casa dele. Emerson era o seu nome, o Ema.

Morreu jovem, aos quinze. Mais novo de dois filhos, era o melhor. Mais carinhoso e que dava menos trabalho. Direito, o oposto do irmão Álefe, que tornou-se um ébrio brigão. Menino simples, tranquilo, carregava consigo aquela ingenuidade do matuto do interior e aquele desejo de ir morar na cidade. Belém, que até hoje lhe perguntam se tudo está bem, mas o silêncio e resignação são sua resposta, mais que necessária.

Os boatos contam que Emerson chegou de motocicleta em um posto de gasolina mais dois desconhecidos, ele e os dois tentaram assaltar o lugar. Durante a fuga o segurança do local atirou no condutor da motocicleta, com isso meu primo caiu e quebrou uma perna ou braço. No chão, recebeu um tiro na cabeça.

Talvez isso tenha sido verdade, considerando que ele havia discutido com o pai pouco antes. Mas acredita-se que estava ali de “laranja”, como diz o colóquio popular. Pois a sua conduta não justifica o boato e dos seus supostos comparsas nada se sabe. Os boatos - eles outra vez - contam que um está morto e o outro preso, mas possivelmente morto também.

Não chamou pela mãe, como deve ser natural a um homem quando vê o fim, tanto mais a um moleque como ele o era. Chamou pela tia, irmã da minha mãe e ex-mulher do tio dele. A notícia chegou a ela, e depois chegou a todos. Ao fim do dia chegou a mim aqui nestas bandas.

Ele não morreu imediatamente, teve morte cerebral no hospital e ficou em estado vegetativo por alguns dias.

Não quis falar com a mãe dele pelo telefone, fraqueza. Não era amigo dela, nunca tivemos a intimidade necessária, e não quis falar do que não sabia. Acho que pra uma mãe que perde um filho, um abraço consolador - e vindo da pessoa certa - é o máximo que deve ser feito. Eu não podia lhe oferecer isso, e não sou a pessoa certa.

Mas parabéns, batamos palmas. Ele foi roubar e a justiça foi feita, bala no cu do ladrão. Não importa se ele era um menino e estava sem defesa no chão, bandido bom é bandido morto. Aos fracos que fique o chôro por quem se foi. É assim não é?

Eu desejo muito acreditar no absurdo das outras vidas, de que se vai a um outro lugar depois da morte. Talvez no vejamos por lá moleque, vamos tomar uma pinga e depois voltar pra casa, que é o nosso lugar.

Adeus Emerson.

Relato dos Recentes Acontecimentos

Os últimos vinte dias foram melhores que os últimos seis meses de 2010, decerto. Mesmo eu tendo ganhado mais dinheiro nesse período – o de seis meses -, comprado livros, discos, meu ingresso pro show do Iron, toda essa merda. Nesses últimos dias eu senti aquela tranquilidade e alegria que há muito tempo não sentia, tanto que havia me esquecido de como era passar mais do que algumas horas assim.

Fortaleza tem lá os seus problemas, como qualquer outro lugar habitado, mas diferentemente de outros tempos, estes mesmos problemas não tem sido fortes o suficiente pra me atingir significativamente, longe disso até, parecem que sequer existem. E isso é bom pra caralho.

Essa foi a primeira semana de aulas na UFC, a denominada semana zero. Houve uma palestra inicial de boas vindas onde um vídeo mostrou parte da estrutura do campus, também fomos congratulados por sermos fodas o suficiente pra passar em um vestibular de nível nacional e foi repetida toda aquela velha história que eu já escutei outras vezes pelo CEFET. Fui apenas nos dois primeiros dias, pois as aulas só começam mesmo na próxima segunda-feira. E por falar em aulas, a minha grade curricular do primeiro semestre é:

• Álgebra Linear;
• Cálculo Diferencial e Integral I;
• Matemática Discreta;
• Introdução à Programação.

Desnecessário dizer que eu tô empolgado pra caralho com isso tudo, mas já fui alertado que Matemática Discreta é barra, bem como Álgebra Linear, mas ando tranquilo e sei que empolgação é normal e que ela vai embora depois de pouco tempo. 

Outra coisa interessante quanto à faculdade é a existência de disciplinas optativas, a grade curricular é maleável e eu acabo escolhendo o que quero estudar. Funciona mais ou menos assim: existe uma quantidade qualquer de créditos necessários à minha formação, sendo que cada disciplina possui um pequeno valor de créditos agregada a si. Das disciplinas disponíveis ao meu curso cerca de apenas 70% delas são obrigatórias, as demais eu vou escolhendo conforme a afinidade que vou criando dentro do curso. Sem contar os créditos livres, que posso gastar com matérias de qualquer outro curso, desde que essas matérias não possuam algum pré requisito. E isso tudo é muito bom, considerando a abragência do meu curso (bancos de dados, redes, programação, inteligência artifical etc.).

Foda vai ser a minha jornada diária até a faculdade: dois ônibus, tanto na ida quanto na volta. Mas aqui existe um negócio chamado Integração Temporal, que é a possibilidade de pegar o segundo ônibus sem pagar a passagem, isso se eu passar a catraca num período de 30 a 50 minutos após ter passado a catraca do primeiro. E isso só vale se você tiver dinheiro no cartão de passagem ou no de estudante, mas existe a comodidade de recarregá-los via Internet. Sem contar os terminais – que são vários - onde não se paga passagem pra embarcar. Porra, o transporte público daqui é bem melhor que o de Belém.

Também voltei a treinar capoeira, sábado passado fui ao lançamento do DVD que celebrava 25 anos de luta do mestre Severo, que é o atual presidente do grupo Legião Brasileira de Capoeira, do qual faço parte. Ao fim rolou uma roda muito animadíssima e rica, havia um rapaz que soltava um golpe que eu só havia visto no Street Fighter, o Tatsumaki Senpuu Kyaku muito mais conhecido como “ataque das corujas” ou “taquiterúguem”. Na capoeira o nome deve ser bem mais simples que isso.

Aproveitando o momento, deixo aqui uma fotografia minha ao lado do mestre Zebrinha:


Existe uma infinidade de outras coisas que eu posso falar, mas são de relevância menor que a dos fatos acima, que por sua vez já não são lá muito relevantes. Mas é isto, a minha vida nunca foi um mar de aventuras mesmo.

Edição: Esqueci de incluir a disciplina Circuitos Digitais quando escrevi o texto.

Recorte Nº 1

José Vicente de Araújo:

Criar um texto que conte a história de alguém a quem chamarei de José Vicente De Araújo, já que ontem - ao deitar - este nome me veio à mente, colocando idéias na minha cabeça. Perturbou até dizer-me que devo escrever algo sobre esta pessoa. Isto sou eu dizendo a mim que devo falar sobre alguém que criarei, admirei isto e respeitarei o que eu disse a mim.

Posto que este dito José viverá em uma cidade agreste, no interior d'algum lugar seco, onde os muros das casas são baixos e o de uma delas é branco. Provavelmente esta casa tem algo de especial e eu devo escrever algo sobre isto também. 

Pois não custa muito e José Vicente de Araújo estará vivo em letras, resta me descer a boa paciência pra isto.

If We Live For a Hundred Years Amigos No More Tears

Não sei se morro de vergonha ou se morro de rir das presepadas que sou capaz de fazer, das infindas tolices lamuriosas e exaltadas que eu costumo criar. Digo isto baseado no texto que escrevi ontem, puta que vos pariu, leiam o que escrevi: "vou ali no banheiro chorar sozinho". Que coisa mais deprimente. Sendo que, na verdade, sequer chorei. Não consegui. Lágrimas servem pra demonstrar a si mesmo a intensidade daquilo que se sente, eu não preciso mais disso. Há muito sei o que sinto e chorar é coisa que não me atrai mais, parece que faz parte de uma outra pessoa que já fui eu um dia, mas que hoje vejo com desprezo e falta de agrado. Chorar por uma mulher não me cabe mais, definitivamente. Antes chorar pelos amigos que deixei, como eles o fizeram por mim quando parti.

O problema se fez quando ontem disse alguns palavrões à Tainah pelo Messenger, na verdade, mandei-a à puta que pariu. Mas, de acordo com o que me lembro, não houve pretensão de ofensa nisto - como eu poderia?. Creio que agi conforme faço com meus amigos quando os chamo de filhos da puta ou os mando tomar no cu, ou ainda outras coisas mais. São apenas interjeições, recursos de linguagem utilizados pra elevar a expressão daquilo que digo. O costumo fazer com freqüência, na verdade eu possuo este pequeno defeito: falo palavrões em excesso com determinadas pessoas. 

E passado isto eu não sei o que fazer, fiz um drama exageradíssimo e a disse adeus, conforme registrei no texto anterior. Se os tempos fossem outros eu lhe faria um pedido de desculpas, com a formalidade necessária, expressando meu pesar e meus sentimentos. Mas hoje, não sei bem porquê, não sinto a menor vontade de pedir desculpas a ninguém. Sendo bem honesto, o que mais me apreende hoje é a possibilidade de conhecer o mestre Zebrinha, criador do grupo Legião Brasileira de Capoeira, do qual faço parte. Estou há cerca de uma semana sem treinar e a possibilidade de jogar com o próprio mestre é algo que me gera ansiedade e expectativas.

Aos poucos eu vou percebendo porque meus amigos me achavam tão sentimental, e ao começar a entender isso eu sinto vergonha, uma grande vergonha de ser tão fútil comigo mesmo. Existem coisas mais importantes que uma boceta.

Engraçado, um personagem que criei pra jogar Lobisomem: O Apocalipse, Trilha-de-Sangue, fruto da minha própria mente, interpretado por mim mesmo nas seções de RPG aos sábados, provavelmente me acharia repugnante e fraco, e muito eu penaria se fosse aceito em sua matilha. Lembro de, em jogo, ter batido em irmãos de tribo e companheiros de matilha, tão somente diante da menor demonstração de fraqueza. Tempos bons aqueles de jogo, aprendi pra caralho ali.

Aí hoje, depois de ter vivido aventuras tão intensas e cheias de horror com Trilha-de-Sangue, após ter tido experiências que em vida real jamais terei, após ter superado situações muitíssimo mais complicadas que essas que vivo hoje, eu ainda me percebo agindo feito uma maricona. Puta que pariu, que falta de vergonha na cara.

Mas farei conforme o meu personagem faria, encontrarei minha fraqueza e a arrancarei com minhas próprias garras. Porque sou mais que um homem, sou um Garou, e o destino me reserva nada menos que glória. 

Vida longa aos filhos da grande Gaia.



Virtual XI

Estava pensando aqui: não vou dedicar um maldito texto descrevendo o meu fracasso sentimental e a estupidez que fui capaz de cometer por tanto tempo. Não, não vou. Bem como não vou dizer que fui capaz de ser loucamente apaixonado por uma mulher enquanto ela namorava e desejava X e Y. Não, não o direi.

Mas vos direi uma coisa: a disse adeus e vou ali no banheiro chorar sozinho. 

Informe de Utilidade Pública

Senhores, venho por meio deste vos informar que reduzirei consideravelmente meu tempo conectado à Internet. Decidi isto porque percebi que meu tempo online é extremamente inútil - raramente tenho feito algo produtivo. Tenho uma centena de coisas interessantes a fazer e não as faço por conta da perda de tempo "navegando" à toa.

Entretanto, as atualizações por aqui terão seguimento, eu só não ficarei a perder tanto tempo com Twitter, Facebook e Messenger. Caso queiram entrar em contato comigo enviem um email para roney477@gmail.com, lhes responderei assim que lêr.

Até breve.


Chaves, qual o tamanho do mar?

Hoje eu vi o mar pela primeira vez. Não mergulhei, apenas fiquei ali, sozinho, um tanto abestalhado. Minha tia - uma mulher que mostra-se tão incrível quanto seu marido - ficou um pouco atrás, observando eu apreciar solitariamente este meu primeiro contato. Caminhei um pouco em direção à água e deixei as ondas chegarem e molharem os meus pés. Não sei muito bem o motivo d'eu ter feito isso, não consigo associar nenhum motivo romântico, sentimental ou místico para esta atitude. Só bateu a vontade e o fiz.

Tirei algumas fotografias com meu telefone, dentre as que tirei escolhi essa aqui:


Mais cedo - pouco antes do almoço - bebi um pouco de vinho argentino com o meu tio, acho que é a primeira vez que bebo um vinho um tanto mais apurado. O sabor é forte, bem diferente daquelas sangrias vagabundas que eu tinha o costume de beber, acabei o estranhando e por conta disso bebi pouco. Mas com o tempo vai ficando bom, principalmente se for acompanhado de fatias de salame, conforme eu fiz.

Num dia mais acessível eu dou uns mergulhos lá na praia e depois venho aqui prestar os devidos registros.

Meu primo coleciona - modestamente - miniaturas de carros. Não são réplicas miniaturizadas, são só carrinhos mesmo, desses que se compram em lojas de conveniência. Ontem, enquanto bebia com os amigos dele, lá no lago do Jacareí, ele foi comprar mais bebida e cigarros - o filho da puta fez questão de comprar da marca que gosto -, na volta ele me trouxe isto:


Desnecessário dizer que me agradei bastante do presente, vou guardar este aí com muito carinho. Estas pequenas merdas tem a gigantesca capacidade de me melhorar, valeu primo.

Noitada, que nem bem o foi.

Ainda a pouco cheguei de uma espécie de farra com o meu primo, aqui de Fortaleza. Bebi, fumei, e extroverti. A noite foi boa, de certa forma; conheci muita gente nova, no sentido de novas pra mim, não de novas porque são jovens - se bem que o são.

Foi muito bom, acabei percebendo que os amigos do meu primo são bem simpáticos, alcoólicos como eu e apreciadores do bom heavy metal, isso foi o melhor. As moças também são muito interessantes, belas e dadas, a melhor parte de tudo.

Foi agradabilíssimo, estou ainda sob efeito da embriaguez agora, com aquela certa ânsia de vômito, mais por excesso de nicotina que de álcool, mas enfim, eu o busquei. Mas que se dane, foi bom.

Ah, sou outro. Não busquem mais textos pretensiosos e raros, isto se foi. Não sou mais eu e a pretensão acabou, apenas vivo. Já perdi a melhor das mulheres por conta de minha grande fuleragem, aqui isso não mais ocorrerá.

Chega da pretensão e da vontade, apenas passarei os dias e os registrarei.

Até breve.

Parti

Fui aprovado para o curso de licenciatura em matemática pela Universidade Federal do Ceará através do SiSU (Sistema de Seleção Unificada), promovido pelo governo federal. Saí de Belém - onde deixei todos os meus amigos - e estou agora em Fortaleza - onde coisas novas estão acontecendo, coisas que me deixam bem; contente e um tanto empolgado, como há muito tempo não me sentia.

Houve festa no dia da minha aprovação, com direito a embriaguez, música boa e abandono das responsabilidades cotidianas, foi apenas festa. Também houve despedida antes de meu embarque e dois dias antes deste houve uma outra despedida também.

Eu não esperava que a minha partida fosse movimentar os meus amigos desta forma, muita gente despediu-se de mim, gente que não via há muito tempo, gente que não é tão amiga - os colegas -, e os amigos de sempre, os que vejo com frequência. Todos me desejando sucesso, boa sorte, felicidade etc. Sou grato a todos, mas não lhes disse isso, apenas fiquei calado. A verdade é que não consegui dizer nada, o fato de ir embora me emudeceu.

Até ontem, quando realizei minha matrícula, não havia parado pra pensar direito nisto tudo, hoje a ficha começa a cair. Conforme eu percebo que estou neste lugar e que - até aqui - ele tem se revelado um local bastante agradável, eu vou ficando contente. Mas como os jardins não tardam a findar, conforme eu penso que fui embora das pessoas que estimo eu fico pesaroso, tanto mais se eu pensar naquela preta desgraçada - que só agora, quando parto, é que veio olhar pra mim.

Espero que ela não se ofenda caso leia isso, mas achei melhor dizer isso que dizer a excessivamente sentimental e romântica verdade: que meu coração pesa e meu semblante desfalece, que falta dela eu sempre sentirei e que mais do que nunca eu quero passar a vara nessa maldita. Realmente foi melhor não tê-lo dito.

Aos meus amigos, Garous companheiros de matilha, eu peço perdão por todas as merdas que eu cansei de fazer, por ter dito que os senhores não eram meus amigos, quando na verdade estavam ali do meu lado. A mim mesmo eu peço perdão por não ter sido homem o suficiente pra sair destes textos, por só ter coragem aqui, não sendo capaz de fazer o que em verdade queria.

Mas esqueçamos estas merdas sentimentais, já estou aqui há cerca de um dia e meio e ainda não vi o mar.

Tenho Decidido

Eu decidi ser bom em tudo aquilo que me aprouver o desejo, portanto:
  1. Serei um hacker, exímio programador e de vasto conhecimento em computação;
  2. Serei mestre de capoeira, isto tardará, mas um dia o serei;
  3. Me tornarei um escritor;
  4. Vou ser o melhor jogador de DotA do grupo;
  5. Comerei uma bela mulher;
  6. Tocarei piano, com maestria;
  7. Serei um grande colecionador de livros;
  8. Serei um grande colecionar de CD's.
Serei muitas coisas mais, mas o serei. Deixarei de ser a única coisa que atualmente sou: alguém que nada é.

Welcome To These Strange New Days, Stranger

Diante desse novo ano, e diante das tradicionais promessas, planejamentos e reavaliações eu também acabei por pensar, ainda que apenas um pouco, em determinadas coisas sobre a minha vida. Não chegou a ser uma reflexão bem introspectiva, cheia de dramaticidade e autoavaliação. Na verdade foram pensamentos cheios de simplicidade.

Pois estes meus simples pensamentos acabam por se resumir ao fato de que decidi me dedicar a novas atividades, e melhorar nas antigas. Escreverei mais, na verdade, já defini um novo período de publicação neste lugar: passarei a publicar qualquer coisa por aqui semanalmente, faça chuva ou sol. Decidi também que colecionarei CD's e livros.

Esta decisão, a de comprar CD's, veio após a minha mais nova aquisição literária que foi o livro Heavy Metal: A História Completa. Conforme iniciava a lêr as bem informativas e ilustradas páginas deste livro, ficava mais empolgado com o gigantismo musical que é e que foi o Heavy Metal, acabando por perceber que aquilo que hoje chega aos meus ouvidos é fruto de um colossal processo histórico que mudou o panorama cultural do mundo nas últimas quatro décadas.

O livro me fez conhecer novas bandas, valorizar as que já conheço e me fez possuir o enorme desejo de consumir material palpável desse gênero. Com isso, comprei aquele que é o primeiro CD que venho a comprar nesta minha jovem vida: Painkiller, do Judas Priest. E logo após esse comprei Nostradamus, também do Priest.

A decisão de escrever - mais - deriva da minha necessidade de compartilhar coisas sobre mim, da vontade que eu tenho de conversar sobre o que acontece no meu cotidiano. Além de que eu acho interessante registrar a minha vida por escrito, bem como registrar variadas idéias que me possam surgir à cabeça. Quem sabe um dia eu não acabe por escrever uma poesia? Pouquíssimo provável.

Já a decisão de colecionar livros deriva-se do fato de que tenho prazer em vê-los na minha estante (uma parte do guarda-roupas que dediquei aos livros), além de outro fator mais forte que este: quanto mais eu leio, mais eu quero lêr. E isso tudo culmina na minha recente vontade de consumir literatura e por fim, produzí-la. E nisto reside um certo problema: não sou bom em produzir literatura, digo, escrever. E isto acaba transformando o plano das publicações semanais em um verdadeiro desafio, mas assim já o decidi e assim o será.

"You've got desire, so let it out! You've got the power, stand up and shout!"
- Ronnie James Dio.

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