Outro Rascunho Perdido, Agora Encontrado.

Tô num supermercado, frente a um janelão de vidro, observando o horizonte. Certo que algumas construções grotescas embaçam a vista, mas ainda dá pra ver o céu e a copa de algumas árvores.

As nuvens estão batalhando, nuvens brancas contra nuvens negras e, ao que parece, as negras estão vencendo. Logo mais cai a chuva como prova das novas donas do céu.

Um poeta - ou qualquer outra espécie de sentimental - afirmaria que a chuva são as lágrimas das nuvens negras que - agora arrependidas - pranteiam a morte das suas irmãs brancas. Bem, é o que um poeta diria, mas eu não sou poeta e isto é só chuva.

Semelhante àquele tipo de gente que extalta o canto dos pássaros. Pássaros não cantam, eles piam uma série estridente de desagradáveis sons que se tornam mais desagradáveis ainda no início da manhã. Da próxima vez que acordar em meio de alguma piadeira de aves desocupadas vou xingar o primeiro poeta que me vier à mente. O que será um grande erro, afinal nem todos os poetas perdem tempo exaltando florestas e bichos.

Observo meu reflexo no vidro, um rosto um tanto sisudo, queixo coberto por um pouco de barba, um bigode ralo, a farda azul com suor e fedor e um cansaço visível em cada pelo do meu rosto.
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