Quero Ir À Churrascaria Com Minha Família

Essas letras são um buraco cheio de falsa segurança e ilusões das piores, pois são ilusões baseadas no desejo de quem escreve. São refúgio pra homens covardes, irresponsáveis e quase que sempre, frustrados.  

Eu quero mudar a vida da minha família, tirá-los desse bairro cheio de gente ignorante e violenta, afastá-los dessas ruas sujas e dessa miséria deprimente; lhes proporcionar uma vida tão agradável que o passado ruim passe a ser um leve resquício de eventos pouco importantes e deixe de ser esse conjunto de cicatrizes, visíveis sempre que se olha no espelho.

Mas eu preciso de muita coisa pra conseguir isso, e quase tudo nessas muitas coisas é algo difícil de se conseguir. Ainda recentemente eu planejei seguir carreira na ciência, tornar-me um pesquisador e habitar os ambientes acadêmicos,  estar na vanguarda do conhecimento. Mas agora, refletindo melhor, eu percebo que isso será um processo lento, lento demais, minha família não pode esperar tanto, e por tão pouco. Ser professor universitário e eventual pesquisador não é algo que vem logo, e a remuneração que traz é pouca.

Muito provavelmente vou ter que fazer um concurso público pra empregos com boa remuneração, e é justamente nisso em que está o problema, no emprego. Me ocorre a quase certeza de que será uma tarefa desagradável, mecânica e sem desafios interessantes, um cargo administrativo medíocre qualquer. Mas o dinheiro é bom, e pode me dar aquilo que eu quero: uma casa boa - um apartamento talvez - num lugar bom, o carro que não temos, diversão em família n'alguma churrascaria sem hora pra voltar, pode me fazer amigo dos meus irmãos, pode me dar o respeito deles. O provedor é sempre respeitável, ainda que venha a ser um canalha. Aquele que te provê daquilo que precisas merece teu respeito.

Antigamente eu ficava mais consolado quando pensava a respeito destes assuntos, eu orava - às vezes em pranto - por alguma orientação, por oportunidades, por inteligência e visão, pra enxergá-las e saber lidar com elas. Hoje eu não tenho mais isso, o que vem a ser um tanto ruim. 

Não existe ninguém ao meu lado, não há entidade alguma que esteja a velar e olhar por mim porque sua graça me atinge, não existe isso. Eu estou só, e não preciso de calos nos joelhos, mas sim de dinheiro.

Não fico muito contente ao pensar que meu pai vai acordar cedo logo mais, preparar o café e ir de bicicleta à barulhenta e fedorenta feira onde conserta e vende relógios. Tal qual a minha mãe, que fará o almoço um tanto às pressas pela manhã pra logo em seguida ir ao hospital aqui perto de casa onde é técnica em enfermagem. São trabalhos honestos, e me orgulho dos meus pais por isso. Acontece que, direfente de certas divindades, sacrifícios não me agradam.

Percebo que está mais do que na hora de sair deste buraco de letras sem valor e passar a ser um homem de ações. Essas palavras acabam tendo o mesmo propósito das antigas orações: ser um escape onde possa jogar todos os desejos frustrados - e são muitos - e que me faça suportar essa realidade desagradável, arrastando-a até onde for possível.   

Férias

Imaginei que passaria as férias por aqui, afogado em livros e possivelmente saindo pra algum ocasional passeio. Nisto, acabei por pegar uns livros na universidade: uma autobiografia de um "famoso" matemático e um outro sobre uma linguagem de programação em particular.

O primeiro livro, a autobiografia, está em inglês, um idioma que não domino e que me força a utilizar meu particular sistema de aprendizado, o Método da Exaustão. Que consiste basicamente em ler - aos trancos e barrancos -, anotar as dúvidas - algumas palavras obscuras, como "full-fledged" -, saná-las n'algum dicionário ou com alguém que conheça o idioma e prosseguir lendo.

Mas os planos mudaram, viajo domingo de volta à família e amigos. Os livros irão, naturalmente, mas a leitura não será mais aquele solitário afogamento suposto a princípio. Terei outras belas atividades - minha empolgação e ansiedade são claras, mas sei que as ditas atividades não serão tão "belas" assim. Mas tal como a fome tempera a comida a saudade embeleza a companhia dos que fazem falta.

Também leio O Senhor dos Anéis, extenso, mas capaz de me afundar num interessante mundo novo e me deixar passeando por lá durante agradáveis horas. E como a saudade tem sido maior estes dias, me faz recordar as sessões de RPG com os amigos. Enfim, este Julho de 2011 se apresenta um promissor mês.

Alterações

Fiz pequenas alterações no texto anterior, substituí algumas frases e corrigi alguns erros de pontuação. Não que a pontuação tenha sido imprópria, no sentido de estar em desacordo àlguma regra destas tantas que há por aí, mas é que não dava o ritmo que eu desejava ao texto.

Estava bêbado quando o escrevi e por conta disso pus nele coisas que hoje - na sobriedade - me desagradam. Agora creio que o deixei num ponto um tanto mais aceitável, ou melhor dizendo, menos inaceitável.

Também, no intuito de levar isto aqui um tanto mais a sério, pus este blog sob os termos da licença Creative Commons, o que pode ser melhor visualizado no rodapé do site. Basicamente, estou permitindo que os textos aqui escritos sejam divulgados e compartilhados livremente, desde que seja citada minha autoria. E proíbo a sua venda bem como alteração.
Licença Creative Commons

Este blog é licenciado com a Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir o conteúdo aqui encontrado, mas não pode vendê-lo ou alterá-lo.