Encontro Nacional da Legião Brasileira de Capoeira

A minha idéia a princípio era escrever uma espécie de texto que enfatizasse - um tanto dramaticamente - o quão contente eu me sinto por ter sido batizado e recebido a corda amarela na Capoeira, um texto que de certa forma demonstrasse o quanto eu esperei por isso e o quanto é bom se perceber como alguém capaz. Atingi meu objetivo inicial, já jogo Capoeira.

Acabei desistindo da idéia, pois me percebi muito dramático com isso tudo e resolvi por fim fazer apenas uma relatório simples de como foi todo o evento, o encontro nacional de membros da Legião Brasileira de Capoeira, em Pacajus - Ceará.

O evento durou dois dias, sexta e sábado, mas cheguei apenas sexta à noite. Após ter jantado e me alojado, enchi a cara de cachaça com alguns colegas e fui dormir lá pelas cinco horas da madrugada. Durante a manhã de sábado houve um aulão com o mestre Catitu, de São Paulo. Eu estava fodido de ressaca e acabei não fazendo muito bem os movimentos que ele ensinou, mas foi interessante ainda assim.

Durante a tarde houve o que todos mais aguardavam, o batizado. Foi feita uma roda logo após aquele tradicional falatório que antecede todo evento apoiado por políticos e micro empresários, jogo leve, só Benguela. No que isto finda teve início o batizado do então mestrando Moleza, que pareceu estar muito calmo diante do fato de ter conseguido algo que poucos conseguem, a graduação máxima, algo que lhe levou cerca de vinte e cinco anos de jogo, agora ele é um mestre, mestre Moleza. Talvez o pensamento dele diante disso tudo seja muito mais simples que o meu, e talvez seja também esta minha mania de dramatizar certas coisas manifestando-se outra vez. 

Após algumas sequências de batizados dos que atingiram graduações mais elevadas houve uma pausa para o batizado das crianças que fazem parte de um projeto social promovido pela prefeitura de Pacajus, todos alunos do professor Valério, organizador do encontro. Eram muitas crianças, demorou bastante pra que todas jogassem. O que mais me surpreendeu foi a presença de uma menina numa cadeira de rodas, que faz parte do projeto apesar da sua deficiência, ela pareceu bem contente e animada por estar brincando com todos. A princípio botaram-na no chão para que esboçasse alguma esquiva diante dos movimentos dos professores e mestres que jogaram com ela, logo após a puseram na cadeira e brincaram com ela empurrando-a em direção ao adversário em maneira de representar alguma espécie de ataque e recuando-a nos momentos em que o adversário atacava. Foi bonito.

Já no fim do evento, após ter me cansado de estar em pé e bater palmas fui batizado com a última leva de alunos - a ordem de batismo é dada de acordo com o nível de graduação dos alunos, menos graduados por último. Joguei duas vezes apenas, sendo que na primeira soltei uma meia lua um tanto baixa que atingiu a cabeça do mestre que jogava comigo, nada muito sério, mas fiquei sem ação e desorientado, voltei a me movimentar normalmente após ele ter me dado um cascudo leve pra que eu prestasse atenção.

O resto são detalhes, alguns feios, como o aluno que desmaiou e ficou tremendo no chão após levar uma meia lua na cabeça, uns tapas cheios de raiva e maldade trocados entre um mestre e um iniciante, uma moça que levou um chute na cabeça, algumas coisas que ao meu ver descaracterizam a Capoeira - deixa de ser jogo e vira briga. Mas também houveram uns outros belos detalhes, uma preta do corpo bonito e do cabelo cheiroso - vou sentir saudade daquele cheiro - que apesar de não ter um rosto muito belo se torna preferível diante de umas brancas um tanto mais bonitas. Também teve uma loura que se mostrou bastante simática no início mas passou a ficar puta com a minha cara depois que peguei minha cachaça e saí do alojamento pra curtir na cidade. Ela achou mais interessante beber a minha bebida enquanto sutilmente se insinuava pr'um musculoso do Piauí, não falou mais comigo após isso, mas haverão outros encontros. Também teve uma outra magrinha que passou a me tratar diferente - pra melhor - depois que eu fiquei sóbrio e tomei banho, mas tudo bobagem, tudo detalhe. 

A luta continua, literalmente. 
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