Varanda

Por algum desconhecido motivo ele adorava aquele lugar, realmente adorava estar ali, observando as pessoas na calçada lá embaixo, quando não, observando o horizonte vez por outra e atentamente ouvindo aquela perturbadora quantidade de ruídos sem sentido que só um vespeiro – como a cidade o é – pode produzir. Ele sentia prazer – não prazer em si, um leve contentamento assim digamos – até no frio do metal e no quão cinza eram o concreto, as paredes, os pisos. Ele gostava disso, e era algo que não compartilhava. Esse tipo de coisa não é algo que se compartilhe, não é o mesmo quando se divide.

Hoje ele estava lá, e num horário que lhe agradava bastante, o pôr do Sol. Vez por outra ele comparava a beleza que havia no pôr do Sol do interior – tentava ressuscitar em sua mente os poucos que lembrava das viagens que havia feito quando criança pra casa d'algum tio ou dos avós – com a beleza do pôr do Sol urbano, daqueles que vêm logo após uma leve chuva, entrecortado por vários prédios. “Não tem coisa mais bonita que isso, não tem mesmo”, ele dizia pra si.

E os pensamentos que lhe ocorriam eram os mais variados possíveis, geralmente com pouca relação entre si – pelo menos é o que pensava, afinal, é um tanto pedante de nossa parte dizer que isso não tem relação com aquilo no que diz respeito a coisas tão desconhecidas como pensamentos o são. A verdade é que dificilmente ele ia ali pra buscar alguma espécie de resposta ou ruminar alguma dificuldade ou tristeza, ele apenas sentia-se bem naquela maldita varanda, com os braços apoiados naquele troço de ferro.

E ele ficava lá, absorvendo o nada por alguns minutos, e nos dias que o desânimo era grande, desejava como nunca que aqueles minutos se alargassem pra ele ficar ali mais tempo enquanto o Sol afundava no canto do mundo, tal qual os seus pensamentos, que afundavam num fosso e ressurgiam num outro dia, que – afortunadamente – costumava demorar a chegar.

Essa última semana foi das mais desagradáveis, os dias passavam rápido, era como se ele se levantasse pela manhã já preparando-se pra tornar à cama pela noite. Os dias eram improdutivos e ele passava por eles sem muita relevância, sentindo-se uma espécie de parasita unicelular mergulhado n'alguma gota de água. Detestava semanas como essas, dias como esses, até mesmo horas assim ele abominava. Era aquela ambição gigante e aquele enorme desejo de reconhecimento esmagando-o outra vez, lembrando-o que o tempo estava sendo impiedoso e que ele não havia ainda chegado lá – seja “lá” qualquer coisa que os ambiciosos buscam.

Ele sempre ficava assim após esses esmagamentos, e hoje, sentindo-se inútil e com um desânimo por ele mesmo classificado como “maior que a puta que pariu” resolveu tornar à varanda e drogar-se com ela, vendo as demais pessoas movimentando-se, diligentes em suas atividades e espantosamente, satisfeitas ou alheias à mediocridade de suas vidas.

Sentindo-se cansado, pegou uma cadeira, daquelas reclinadas parecidas com as de praia. Sentado, viu uns vasos com algumas dessas plantinhas de apartamento. Vieram vários dias após esse, e vários anos também. Ele se graduou na universidade, virou mestre, doutor, pós doutor, trabalhou, casou-se, teve filhos, divorciou-se, mudou-se. E após tudo isso, os esmagamentos não cessavam, vez ou outra surgiam com a mesma ladainha que ele já conhecia bem.

Cansado, tornou-se jardineiro e não haviam mais esmagamentos.
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