Doutora

Já fazia algum tempo que ela vinha se esforçando em não romper uma espécie de código de ética profissional que possuía, algo que lhe dizia que era estritamente proibido envolver-se ou desejar – que é o princípio do envolvimento – algum paciente, por mais interessante que esse paciente pudesse ser. Entretanto, já bem sabemos – e ela também – que tem falhado em manter a sua irrefutável conduta ética com este último, ela o deseja e, enquanto ele está lá no divã, ela o imagina, deitado também, mas em sua cama, com o rosto em seu colo. Não sabemos de onde esse desejo surgiu, vamos começar a história assim, com ele já manifesto.

Hoje, menos exigente com o seu já referido código e mais ávida por vê-lo – o paciente, não o código – destrinchando as suas muitas imperfeições outra vez, decidiu conhecê-lo melhor – melhor ainda –, pra que de uma vez por todas se decidisse quanto à prosseguir ou não com aquilo que ela mesmo definiu como “insanidade”. Já não sou mais uma adolescente pra ficar gastando meus pensamentos com paixões, palavra feia essa, “paixão”.

Ele entrou no consultório, aquela habitual camisa de algodão - sem estampas - o jeans surrado e os tênis mais ainda. Queixo cinza, princípio de barba surgindo, ele gostava quando estava assim, não entendia muito bem a razão, mas se agradava em passar a mão pelo queixo quando a barba principiava a aparecer. Já estava achando isso tudo – as consultas – uma certa perda de tempo, não tinha visto nada de novo desde que as iniciara e sequer tinha vislumbrado alguma espécie de solução para o seu recente desânimo. Acontece que o cheiro da doutora era bom e se tinha uma coisa que ele gostava nesse mundo era de cheiros bons. Gostava do cheiro mesmo, não via muito sentido em começar a gostar de alguém apenas por conta do cheiro que exalava – embora isso contasse –, se pudesse separar o cheiro do dono o faria, colocando-o em um frasco e guardando-o num armário do quarto. Mas contraditoriamente, ele não se agradava de cheiros em coisas mortas, como shampus e perfumes. Os cheiros teriam que estar em algo vivo, que se mova. Sendo assim, porque separá-los de seus donos? Ele não gostava das próprias contradições.

– Oi Pedro, boa tarde – ela o recepcionou de pé, como deve ser, com um aperto de mãos. Tudo bem?

– Tudo, bem, quase tudo, né? Afinal, é por isso que eu tô aqui.

– Sim, claro, entendo. Não, não. Sente-se na poltrona, não usaremos o divã hoje. Hoje vai ser um pouco diferente das outras vezes. Não vamos mais seguir aquela outra linha, muito formal e sem graça, vamos ver como a gente se sai numa conversa mais descontraída. Nada de anotações e relatórios, hoje vamos conversar, só isso.

Achando aquilo um tanto estranho – mas positivamente estranho, ele gostou – ergueu-se e sentou na poltrona, era boa. Ela tinha dinheiro pra comprar móveis caros e pô-los num consultório cujo aluguel era caro. Ele é que não tinha dinheiro pra pagar as consultas, mas tinha um nome e isso é o suficiente pra que se crie uma conta em um banco e se a utilize pra fazer dívidas que não serão pagas. Ele não se importava com as dívidas, tanto mais essas que se valiam no cheiro da doutora.

– Eu quero que você me fale das coisas que quer fazer, qualquer coisa, é só dizer.

– Não entendi direito, como assim, coisas que quero fazer?

– Qualquer coisa, seus desejos recentes e os já antigos. Qualquer coisa que você quiser, da mais simples à bizarra, extravagante.

– Acho que entendi. Bem, deixa eu pensar um pouco. Engraçado, a gente quer tanta coisa que nem sabe por onde começar. Certo, ultimamente me surgiu uma vontade de ler um livro de filosofia daqueles bem cabeçudos, que me façam pensar sobre minha natureza e sobre a natureza das coisas ao meu redor, ao nosso redor e, quando as páginas me cansarem e o texto ficar chato, intercalar esta leitura com uma outra. Ler um romance, daqueles que tem prédios e chuva, e seres humanos com seus problemas.

Pausa, botou a mão no queixo e ficou olhando qualquer coisa além da janela. Pensativo, retornou ao que dizia. Ela ouvia tudo com muito interesse, e sorriu apenas consigo ao se lembrar que há não muito havia iniciado a leitura de um livro de filosofia. Uma versão de bolso, costumava ler antes de dormir e nas eventuais filas que enfrentava. Devia ser algo um tanto popular – entre os leitores de filosofia –, Nietzsche talvez.

– Também quero tocar piano. Quero chegar a um ponto em que possa tocar muito bem uma música bacana, sem plateia, apenas eu satisfeito com o que posso fazer. Tocar uma música que ouvi em Le Fabuleux Destin d’Amelie Poulain.

– Em o quê?

– O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, é um filme.

– Ah, sim. Eu conheço, continue.

– Quero ser entrevistado, quero que me perguntem coisas sobre algum bom livro que escrevi, não que eu já tenha escrito algum, quero dizer, tô falando de uma realidade hipotética. Um que fez a crítica ficar doida, os que defendem e os que detestam, e dentre os que detestam, aqueles que acham toda a obra nada mais que a petulância grafada de um jovem escritor. Que palavra bonita, grafada.

– Sim, é.

– Quero almoçar em algum lugar com piso de madeira e vista pra água, rio ou mar. E neste almoço quero a companhia de alguém bonito, que fale pouco e me permita aproveitar a beleza do momento, bem como a beleza da própria pessoa. Isto me faz perceber que admiro um tipo muito peculiar de gente.

– Qual tipo?

– Aquelas que são como quadros.

– Quadros, como assim?

– Sim, quadros, obras de arte. É o tipo de gente que você deseja por perto, sabe? Mas pra admirar apenas, porque afinal, quadros não falam. Mas apesar de não falarem, estão lá melhorando incrivelmente o ambiente, te fazendo pensar, quando não, te fazendo sentir-se bem, apenas. Mas tem também os quadros ruins. Tem quadros que são feios, que deixam o ambiente desagradável. Tipo aqueles abstratos, que não passam de um enigma escancarado na parede da sala. Não gosto de mistérios, gosto de boas explicações. Acho que é daí que vem meu desapego pela poesia, que não passa de um arranjo de palavras pra esconder algo. E os poetas não passam de gente que não sabe se explicar, ou que quer ser percebido pela estranheza desses seus arranjos.

Outra pausa, pensativo mais uma vez.

– Eu quero estar numa daquelas cafeterias com cadeiras próximas às suas janelas, enquanto uma chuva torrencial atormenta a cidade lá fora. Beber um bom café enquanto vejo a água cair e começo a pensar em mim e nas pessoas que por mim passam ou passaram.

– É? Que pessoas? Se não te incomodar dizer quem elas são, é claro.

– Não, tudo bem. Bem, não sei ao certo, várias. Algumas que conheço da faculdade, as garotas que já peguei, você.

– Eu, como assim, eu? – ela gelou enquanto emitia aquele riso de constrangimento.

– Sim, você. No cheiro bom que você tem.

– Nossa, obrigada – ela disse após sorrir, um tanto sem graça. Mas enfim, vamos lá, continue.

– Quero silêncio, mas não um silêncio sepulcral, quero silêncio com vozes, mas vozes suaves, que se manifestem pouco. Que não falem da vida alheia, que tratem de ler e lendo se percebam deprimentes e após se perceberem deprimentes, que mudem. Quero largar a minha soberba e deixar de me sentir superior aos outros, não importa quem seja. Gente é um negócio importante, muito importante.

– Que bom que você percebeu isso.

– Valeu, obrigado. Quero ser tão interessante quanto os personagens bacanas que vejo nos filmes. Nos filmes bons, é claro. E tipo, também quero que as pessoas não digam mais “a personagem” e sim “o personagem”, é mais bonito. Quero falar francês. Quero uma francesa com seu vinho e sua pele branca, bem como seu corpo magro e sua literatura.

Ele ficou calado por uns dez minutos, com a mão passeando pelo queixo e o olhar distante, admirando alguma coisa no carpete. Ela esperou pacientemente.

– Acho que é só, isso é o que me veio à mente por agora.

– Nossa, que bonito. Você tem desejos simples, mas muito belos, muito mesmo – disse meio que perdendo a voz aos poucos, como quando estamos a principar um devaneio. Bem, você é o meu último paciente por hoje. O que acha da gente tomar um café lá embaixo – disse com um sorriso.? Tá chovendo bastante lá fora e a cafeteria é boa, e, outro detalhe, as cadeiras são próximas das janelas. E aí, algum problema pra você?

– Não, nenhum. Eu adoraria – sorriu.
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