Película

Antes de realmente desenvolver minhas ideias nesse texto, acho importante tornar o leitor ciente de alguns conceitos que serão desenvolvidos no seu decorrer. Quanto aos leitores que já são familiares aos tais conceitos, lhes aconselho a prosseguir calmamente com a leitura, sem o salto de linhas, pois assim observarão a minha interpretação sobre suas definições, coisa que é um tanto subjetiva.

No jogo de RPG Lobisomem: O Apocalipse, a Película é a barreira existente entre o mundo material, este onde habitamos, e a Umbra, que é o mundo espiritual, habitado por entidades místicas com nível bastante variável de poder. Neste jogo, os lobisomens, mais conhecidos como Garous, são criaturas que vivem com os pés em ambos os mundos, tendo portanto, a habilidade de atravessar a película e caminhar pelos diversos planos da Umbra. Um desses planos é a Umbra Virtual, que deu origem ao título deste blog.

Boa parte da função de um lobisomem na sociedade Garou, bem como sua própria personalidade, é definida de acordo com a fase da lua no dia de seu nascimento, isto é, o seu augúrio. Os signos lunares constituem os arquétipos de personalidade que são a base para a construção e interpretação de qualquer personagem no jogo. Dentre esses signos existe o Ragabash, que é o correspondente à lua nova. Garous de tal signo são os menos irascíveis, mais brincalhões, certas vezes são os advogados do Diabo, são sagazes, inteligentes, grandes questionadores, sua eficiência em batalha se dá pela sua habilidade com a mente, não com o corpo. Entretanto, existe a outra face do garou ragabash, que pode ser um manipulador exímio, um furtivo assassino impiedoso ou um garou cheio de rancor, que é gerado toda vez que sua voz é emudecida pela brutalidade dos ahrouns, garous do signo guerreiro. 

Mas ao meu ver, por trás de todo ragabash existe um silencioso observador da realidade, que guarda apenas consigo certas impressões que os outros não observam. A fúria nos ragabash é menor porque Gaia, a mãe criadora, sabe os filhos que tem. Um ragabash enfurecido é algo que se deve temer bastante.

Nos dias de lua nova as características do signo ragabash são realçadas, estando ele mais propenso a ser questionador, manipulador, furtivo etc. Ao atravessar a película, um garou se sente mais livre, forte e mais próximo de seu lado menos conhecido, o espiritual.

Ocasionalmente, quando me embriago, me sinto um ragabash, numa lua nova, após atravessar a película. E mais ainda, pareço um ragabash que esqueceu ou ignora a ordem do mundo e resolve vomitar todas as impressões que costuma carregar silenciosamente. A fúria acumulada é posta fora, mas diferente dos pretensiosos ahrouns ela não se manifesta como um ataque violento de destruição, não, apenas se rompe o véu e todos veem o verdadeiro ragabash. Nisto reside um grande problema.

O ragabash interior é feio, cheio de impressões podres sobre tudo. Mas digamos que o ragabash em questão não seja tudo isso e tenda a um arquétipo mais nobre, transformando-se apenas no bobo da matilha. Ainda assim, ele sabe o que carrega consigo, e os outros não gostariam de ver. 

Quando estou muito embriagado tudo sai, e os outros, vendo o que sou, ficam chocados e quase sempre bastante ofendidos com as navalhas de sinceridade que são atiradas a todos os lados. É como se eu atravessasse a película e começasse a correr pela Umbra berrando verdades desagradáveis. Mas o pior é que essas tais verdades não são grandes observações minhas sobre o mundo e as pessoas, nada disso, são apenas os meus desejos cretinos, a minha raiva escondida e a minha megalomania amansada.

Mesmo tendo ciência da tamanha estupidez que tudo isso é, a vontade é não parar de correr, de continuar sentindo esse doce sabor de liberdade e parar apenas nos mansos braços de Gaia, que ama a todos. Essa é uma face muito interessante em Lobisomem, a mãe. Sem a certeza dela, o ragabash e qualquer outro garou seria muito mais amargo, pisoteado pela inevitabilidade de seu destino, que é ser esmagado pela Wyrm na última batalha.

Consigo imaginar o que um garou é capaz de sentir quando reencontra sua matilha após uma jornada umbral solitária. A vontade é abraçá-los, e em silêncio desejar nunca mais cair nos braços da liberdade inebriante, ou seria da embriaguez libertadora?
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