Pois Sinto-me Bem

Muito complicado me seria descrever as coisas que sinto agora, as coisas que venho sentindo já faz um certo tempo e as coisas que me ocorreram nestes últimos cinco meses, que creio eu perfazem o tempo deste meu último texto até aqui.

Estou feliz, apesar de tudo estou feliz. Bem sei o quanto costumo ser severo com estas palavras, feliz, felicidade etc. Tanto mais com o seu emprego. Bem, certamente é um tanto tolo afirmar que sou severo com as palavras em si, já que palavras não sentem nada por elas mesmas. A bem da verdade, o que são palavras? Preciso de um dicionário que o diga já que não sei definir o que palavras são. Temo ter me viciado em definições, ao ponto da dependência. Mas qual o vício que não é uma dependência?

O que ocorre, conforme ia dizendo, é que apesar de todos os desagrados que costumam surgir ocasionalmente, uns problemas com dinheiro, tanto os gerados pela falta como os gerados pela presença dele, umas irritações geradas pelo trabalho, umas coisas que não funcionam, apesar de tudo isso me encontro sereno e alegre. Talvez seja algo bem fugaz, que me caia apenas no momento em que escrevo isso e talvez se vá tão logo feche este computador. Isso são coisas que não sei. O tempo das emoções eu certamente não domino.

Me apareceu uma mulher para alegrar os meus dias, me apareceram progressos que buscava há um certo tempo, me apareceu uma certa quantia de dinheiro que apesar de me irritar de vez em quando, me alegra por estar lá. É como se tivesse atingido um certo limiar, no que tange a receber dinheiro, um "milestone" como os gringos dizem. É a primeira vez que em minha conta bancária existe um valor com quatro dígitos. Antes eram sempre três, nunca chegando aos novecentos. Como sou pobre, dinheiro me alegra de vez em quando.

Agora estou na casa da minha mulher, que apesar de eu assim o dizer, não é minha em nada. Ela é dela, acontece que resolveu se doar a mim de vez em quando. Estou aqui com sua família, basicamente composta por pai, mãe, irmãos, cães e gatos. Dois cães e quatro gatos. Ainda a pouco estávamos juntos, vendo um documentário neste mesmo computador, comigo dizendo que a amava e ela retribuindo. É a primeira vez que sou amado. Naturalmente existe o amor da minha mãe, jamais esqueço deste, mas ele não conta pro que quero dar a entender. Sendo assim, é a primeira vez que sou amado e, tão importante quanto, é a primeira vez que amo. Pensei já ter amado antes, hoje tenho mais razões pra crer que não, definitivamente não.

Não gosto de abusar dessas palavras, amor, amar, felicidade etc., porque me soam um tanto frescas e tenho um certo asco à frescura. Não me agrada. Mas devo confessar minhas verdades vez ou outra, nem que seja confessá-las a mim apenas.

Há um gato preto e branco, malhado feito uma vaca, dormindo perto de mim. Está escuro, mas com iluminação suficiente pra tornar esta casa, que é feia, em um lugar bonito. Creio que todas as casas, com a dose certa de iluminação, são bonitas durante a noite. Principalmente quando todos dormem, quando existe o silêncio e se tem liberdade pra escutar o que a cabeça está a dizer. Pra mim esse ambiente é extremamente belo, sorte a minha ele não ser tão raro, ser fácil de reproduzir.

Pois sinto-me bem, já esquecendo aquelas ideias de escrever com raiva, reclamando e me inflamando de revolta. Ela não deixou de existir, claro está, o que me ocorre é que dessa vez busco a dose certa de serenidade pra poder administrar os elementos que cercam o caminho que trilho enquanto vivo. Pouca coisa. Arrumar dinheiro de vez em quando, cuidar dos meus pais quando forem velhos, cuidar dos filhos quando vierem, viajar e beijar a minha mulher em belos lugares. Ler livros, ter uma biblioteca, escrever algo que se note, fazer algo que se note, desistir de querer ser notado, enfim, fazer gerenciar esses pequenos desejos cada um por sua vez, sendo sereno o suficiente pra dar vazão como os sentimentos que sinto agora por mais vezes.

O meu desejo nada mais é que manter-me calmo o suficiente pra poder ser alegre por mais tempo e com isso apreciar a vida que tenho, sendo ela única do jeito que é. O tempo é precioso.

As Três Marias

Três malditas marias, três demônios que eu tenho que matar.

A primeira já se foi, de certa forma apenas, mas se foi. A forma como as coisas se resolveram não foi das mais agradáveis - uma espécie de fracasso menor, eu creio - mas foi posto um ponto nisto, nesta bobagem que eu criei, nessa confusão sem sentido na qual me meti - pelo menos a primeira delas, as confusões sempre são muitas. Ainda assim - ainda que se considere tudo findo, o demônio morto -, foi bom tê-la visto novamente. Emagreceu, parece ter ficado um tanto mais tímida também - se bem que, muito provavelmente fui eu que me tornei altivo, soberbo e simulando uma espécie de destermor que nunca tive. Ela olhava o chão enquanto eu não olhava outra coisa senão seu rosto, conversamos decentemente pela primeira vez.

Se no passado tivesse sido o que sou hoje talvez as coisas tivessem um outro resultado, talvez não houvessem marias a serem mortas. Mas não é bom pensarmos em termos de "se", se isso, se aquilo, o que se pode fazer é, no máximo, encarar o demônio hoje, no presente. É uma maria que se foi, acabou, sem chances, nunca mais. O demônio está morto, ainda que eu não tenha me sagrado campeão.

A frustração é uma merda, uma bela porcaria, diga-se. É o tipo de sentimento que é capaz de alterar significativamente a vida de alguém. Não fosse a frustração, não fosse essa tristeza por nunca ter tido aquilo que se desejou, esses embates contra agentes do passado não existiriam e, provavelmente, a mente se ocuparia de tarefas mais nobres que esses sentimentalismos pessoais. São um tanto deploráveis algumas dessas facetas nossas, essa por exemplo. Coisa de criança mimada quando se vê sem ter o que quer. Isso me faz imaginar que, talvez, todos esses grandes artistas são um bando de crianças mimadas. Não tendo aquilo que querem vão chorar em quadros, poemas, música. Muito acaba se resumindo em desejo, um poderoso agente motor que modela o mundo.

Eu quero, eu ainda quero e vou encarar o demônio tendo em mente a minha vontade, tentarei torná-la real. A depender do embate um texto diferente será escrito. Talvez um que fale do contentamento por enfim, após tantos anos e pensamentos, ter tido aquilo que quero. Ou talvez um outro - já um tanto tradicional esse - que fale do opróbio que é o fracasso definitivo, o insucesso na última tentativa. Mas certamente, seja qual for o resultado de tudo isso, porei em prática um ritual que tenho em mente. Vou me encarar diante do espelho e bater palmas pra mim, celebrando, não importa o resultado, eu vou celebrar. Baterei palmas em virtude desse que será um dos maiores empreendimentos de coragem dessa minha diminuta existência. Esta maria, a segunda, é a que eu mais temo - ah, e como a temo. Quanto mais me aproximo do combate mais apreensivo fico, mais meu sangue esfria e menos eu sei como agir.

Uma coisa é falhar em algo que você sabe que pode fazer outra vez, mais preparado, experiente. Outra coisa totalmente diferente é se perceber num ponto definitivo, algo único em que todo aquele desejo acumulado está em jogo. Não existe segunda chance pra garotos crescidos.

Todo mundo deve ter lá os seus demônios do passado, algum elemento distante no tempo que ainda insiste em ressurgir em meio a pensamentos desagradáveis. Mas ao que me parece, todos vivem vidas perfeitas, cheias de sucesso e felicitações. Parece que é coisa de poucos admitir que se está sendo perseguido por uma horda furiosa de lembranças. Há aqueles ainda que parecem ignorar isso e só lembram daquele elemento perdido no tempo quando, pela noite, ele surge retardando o nosso já tão escasso sono com uma dezena de imagens que pareciam perdidas.

A primeira já está morta, a segunda enfrento em breve, e quanto a terceira? A terceira é uma questão de conversar e pedir desculpas. Não existe mais desejo quanto a ela, em verdade o desejo existe, ele nunca morre ao meu ver, o que ocorre é que, nesse caso, ele foi lançado aos desejos banais, aqueles desejos que se sentem fácil por coisas comuns. 

Eu quero partir daqui com isso tudo resolvido, com a sensação de que tudo acabou, haja sucesso ou não. Isso deve ser aquele tipo de coisa que as pessoas chamam de lavar a alma, pois vou lavar minh'alma no sangue das marias.

Sangue de Maria

Em minhas mãos jaz o sangue que um dia foi teu.
Lembras tu aquilo que há muito de mim levou?
Pois em teu sangue reclamo o que é meu,
tua morte é o presente que me dou.
Licença Creative Commons

Este blog é licenciado com a Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir o conteúdo aqui encontrado, mas não pode vendê-lo ou alterá-lo.