As Três Marias

Três malditas marias, três demônios que eu tenho que matar.

A primeira já se foi, de certa forma apenas, mas se foi. A forma como as coisas se resolveram não foi das mais agradáveis - uma espécie de fracasso menor, eu creio - mas foi posto um ponto nisto, nesta bobagem que eu criei, nessa confusão sem sentido na qual me meti - pelo menos a primeira delas, as confusões sempre são muitas. Ainda assim - ainda que se considere tudo findo, o demônio morto -, foi bom tê-la visto novamente. Emagreceu, parece ter ficado um tanto mais tímida também - se bem que, muito provavelmente fui eu que me tornei altivo, soberbo e simulando uma espécie de destermor que nunca tive. Ela olhava o chão enquanto eu não olhava outra coisa senão seu rosto, conversamos decentemente pela primeira vez.

Se no passado tivesse sido o que sou hoje talvez as coisas tivessem um outro resultado, talvez não houvessem marias a serem mortas. Mas não é bom pensarmos em termos de "se", se isso, se aquilo, o que se pode fazer é, no máximo, encarar o demônio hoje, no presente. É uma maria que se foi, acabou, sem chances, nunca mais. O demônio está morto, ainda que eu não tenha me sagrado campeão.

A frustração é uma merda, uma bela porcaria, diga-se. É o tipo de sentimento que é capaz de alterar significativamente a vida de alguém. Não fosse a frustração, não fosse essa tristeza por nunca ter tido aquilo que se desejou, esses embates contra agentes do passado não existiriam e, provavelmente, a mente se ocuparia de tarefas mais nobres que esses sentimentalismos pessoais. São um tanto deploráveis algumas dessas facetas nossas, essa por exemplo. Coisa de criança mimada quando se vê sem ter o que quer. Isso me faz imaginar que, talvez, todos esses grandes artistas são um bando de crianças mimadas. Não tendo aquilo que querem vão chorar em quadros, poemas, música. Muito acaba se resumindo em desejo, um poderoso agente motor que modela o mundo.

Eu quero, eu ainda quero e vou encarar o demônio tendo em mente a minha vontade, tentarei torná-la real. A depender do embate um texto diferente será escrito. Talvez um que fale do contentamento por enfim, após tantos anos e pensamentos, ter tido aquilo que quero. Ou talvez um outro - já um tanto tradicional esse - que fale do opróbio que é o fracasso definitivo, o insucesso na última tentativa. Mas certamente, seja qual for o resultado de tudo isso, porei em prática um ritual que tenho em mente. Vou me encarar diante do espelho e bater palmas pra mim, celebrando, não importa o resultado, eu vou celebrar. Baterei palmas em virtude desse que será um dos maiores empreendimentos de coragem dessa minha diminuta existência. Esta maria, a segunda, é a que eu mais temo - ah, e como a temo. Quanto mais me aproximo do combate mais apreensivo fico, mais meu sangue esfria e menos eu sei como agir.

Uma coisa é falhar em algo que você sabe que pode fazer outra vez, mais preparado, experiente. Outra coisa totalmente diferente é se perceber num ponto definitivo, algo único em que todo aquele desejo acumulado está em jogo. Não existe segunda chance pra garotos crescidos.

Todo mundo deve ter lá os seus demônios do passado, algum elemento distante no tempo que ainda insiste em ressurgir em meio a pensamentos desagradáveis. Mas ao que me parece, todos vivem vidas perfeitas, cheias de sucesso e felicitações. Parece que é coisa de poucos admitir que se está sendo perseguido por uma horda furiosa de lembranças. Há aqueles ainda que parecem ignorar isso e só lembram daquele elemento perdido no tempo quando, pela noite, ele surge retardando o nosso já tão escasso sono com uma dezena de imagens que pareciam perdidas.

A primeira já está morta, a segunda enfrento em breve, e quanto a terceira? A terceira é uma questão de conversar e pedir desculpas. Não existe mais desejo quanto a ela, em verdade o desejo existe, ele nunca morre ao meu ver, o que ocorre é que, nesse caso, ele foi lançado aos desejos banais, aqueles desejos que se sentem fácil por coisas comuns. 

Eu quero partir daqui com isso tudo resolvido, com a sensação de que tudo acabou, haja sucesso ou não. Isso deve ser aquele tipo de coisa que as pessoas chamam de lavar a alma, pois vou lavar minh'alma no sangue das marias.
Licença Creative Commons

Este blog é licenciado com a Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir o conteúdo aqui encontrado, mas não pode vendê-lo ou alterá-lo.