Solitude

— Obrigado por ter vindo, na moral. Tava precisando.

— De boa, eu também tava precisando dar uma relaxada. Tenho trabalhado pra porra ultimamente. Uma breja com um brother vai me fazer bem.

— Tô ligado. Uma pena que você não esteja realmente aqui.

— Fica tranquilo, é aceitável apelar pra certos subterfúgios em situações emergenciais. Imagino que a tua situação seja emergencial, não é? Melhor você esquecer que isso aqui é de mentira senão acaba não dando certo.

— É, é um tanto emergencial mesmo. Mas fica de boa, vamos tentar fazer do jeito que eu imaginei. Do jeito que eu já estou imaginando, na verdade.

— Então vamo lá, manda brasa. Diz aí o que é que tá pegando. Vamos tomar devagar essa breja imaginária e ter uma agradável conversa imaginária também - sorriu -. Sabe que comigo não tem dessas viadagens. Fala tudo de boa e se, de repente, eu tiver algo pra dizer, eu falo. Senão a gente fica por isso mesmo.

— Solidão.

— Imaginei.

— Tenho me sentido só pra caralho nos últimos dias. É foda sabe? Nem aquele papo de me afogar em alguma atividade que eu curta tem dado mais certo. Eu tô de saco cheio desse caralho todo aqui. Quero voltar pra casa. Aquele lugar é uma merda, mas pelo menos eu não me sinto tão só.

— E a mulher?

— Ah, ela ajuda pra caralho. Mas eu não quero depositar toda essa merda nela e acabar estragando tudo. Ela acaba sendo meu único refúgio nesses dias escrotos e seria foda descarregar tanta carência sobre ela.

— Mas vocês ainda conversam como antes?

— Sim, sempre. Toda noite. Mas enfim, ninguém curte gente dependente. Eu não curto, me detesto por isso. A imagem que quero passar, bem como a que quero ter de mim mesmo é bem diferente dessa. Desse molequinho fresco cheio de sentimentalismos.

— E qual é a imagem que você quer passar?

— De um cara bruto. Quero dizer, de um cabôco macho mesmo. Sem frescurinhas, um cara decidido, forte. Que faz aquilo que tem que ser feito e segue aproveitando a vida. O tipo de cara que as mulheres gostam e os homens respeitam.

— É, você tem razão. Nesse caso é melhor tu ficar masturbando a mente com bobagem do que ficar todo neurado e acabar fazendo merda. Tipo, fica se entupindo de mídia entediante na Internet mesmo. Vídeos, imagens, texto. Essas porras. Melhor isso do que tu ficar pegando no pé da menina e começarem a rolar aquelas discussões gratuitas e sentimentais que, convenhamos, não te caem bem.

— É, eu tô ligado nisso, foda. Estranho numa terra estranha. Clichê do clichê. Sentimento repetido, merda do caralho. Merda!

— Relaxa, brother. Na moral, acho que tu devia desencanar, saca? Tipo, esperar menos das coisas, inclusive da mulher. Não fica esperando ela te dar atenção, isso é patético. Nem fica esperando por algo interessante acontecer com você, ou com vocês. Deixa essa porra pra lá. Tu tem que encarar o fato de que está sem ela, ponto. Comece a agir assim então. Tu fica fazendo tudo como se ela estivesse ali contigo o tempo inteiro. Deixa eu te contar uma nova: ela não está.

— Cê tem razão.

— Talvez eu tenha. Mas também não vai ficar frio com a menina, é aquele papo lá de se apegar às pessoas mas não ser dependente delas.

— Eu já manjava esse papo, tentei por muito tempo agir assim. Mas é que chegou num ponto em que não dá mais pra fazer isso. Esse papo de se apegar e não ser dependente é meio mentiroso. Nós somos dependentes pra caralho dos outros. Fique sozinho por uns meses e vai entender o que eu digo.

— Só posso te desejar força então.

— Valeu.

— Esquece esse papo de ser produtivo. E de ter tantas pretensões também. Tu já se fodeu por querer ser bom em tudo. Para com isso. É como eu disse, vai passando o tempo fazendo qualquer merda que te de distraia até dar o período em que você puder voltar.

— Vou tentar. Valeu aí pela força. Não quero mais falar sobre isso, já deu. Mas, valeu por ter vindo. Melhor pedir a conta.

— Não tem conta.

— Ah, é verdade. Bem, então é melhor a gente ir embora mesmo.

— Beleza.

Ambos se levantaram, apertaram as mãos e se abraçaram. Cada qual pegou a garrafa em que estavam bebendo e saíram. As luzes se apagaram e os clientes silenciosos foram sumindo feito névoa, por último o dono do bar. Tudo se desfez.

Ele olhou pro que havia escrevido. Deixou a dor nos braços lhe dominar por uns instantes e sentiu um desprezo muito grande por si mesmo. Tinha horas em que ele pensava que era dois, mas tinha horas em que ele pensava ser apenas um mesmo. Um moleque detestável, mas apenas um.

Abaixou a tampa do laptop, já era tarde mas ainda havia barulho de carros lá fora. Texto escroto do caralho. Bebeu uns goles de água na boca da garrafa, da única. Precisava enxê-la novamente mas não o faria agora. Talvez amanhã quando chegar da rua.

Puxou um cigarro e ficou fumando na janela. Não havia varanda, só a janela e as torres cinza lá fora, com os carros embaixo. O cigarro acabou, o sono veio e ele se deixou cair no colchão sem colcha jogado no canto do quarto.

Mais um dia, ou menos um dia. Você conta como quiser. O copo tá meio cheio ou meio vazio? É só um copo caralho, é só um copo.

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