Sábado

Ambos deprimidos num sábado quente. Eu finjo, me distraio com vídeos tolos, fumo um cigarro olhando pra multidão de carros que passam lá em baixo e aturo o calor que já não me irrita mais tanto.

Ela fica deitada o dia todo, ambos não almoçamos ainda.

Decido que é melhor lavar a louça, varrer a casa e preparar algo pra comer. Ela não gosta da minha comida, mas vou chamá-la mesmo assim. Alguém precisa insistir, nem que seja fingindo, ambos não podem cair.

Talvez insistir seja a maior prova de amor que posso oferecer. Eu vou continuar insistindo, mesmo que ela não queira comer.

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Esse computador não é dos melhores, puta bicho travoso. Não que ele seja ruim, tem lá os seus méritos. Muito melhor que os meus primeiros, com certeza, mas essa placa de vídeo é uma desgraça, lixo completo. Ciência transformada em produto barato pra arrancar dinheiro de algum otário. Mas não tem problema, eu consigo me virar com o que tenho.

Instalei o sistema mais leve e minimamente funcional que conheço, deu pra resolver boa parte dos problemas mas não dá pra fazer milagre. Quando o hardware é um lixo não há muito que possa ser feito. Sem bronca, eu consigo me virar bem com um computador. Sendo bem honesto isso aqui é luxo, a primeira coisa minimamente parecida com um computador que eu tive foi uma agenda eletrônica. O troço já era um negócio completamente obsoleto quando meu pai me deu, deve ter sido uma daquelas coisas que não foi pra frente, acabava sendo melhor usar o papel mesmo. Não foi algo que me incomodou, fiquei apaixonado pelo aparelho. Qualquer coisa que tivesse um tecladinho mais enfeitado já me chamava atenção, causava a impressão de que era um computador de verdade, o suficiente pra me manter entretido por boas horas.

Teve um dia que eu tava lá no quintal de casa, mexendo na minha agenda. Tava sentado no tampo de concreto da fossa no meio daquele terreno cheio de mato e lixo. Não tinha muita coisa pra fazer dentro de casa, às vezes o melhor lugar pra espairecer era o quintal mesmo. Pois fiquei lá mexendo na agenda, meio rancoroso por causa daquela pobreza toda, ressentido por não ter um monte de coisas que eu desejava. Nessa moeção toda de sentimentos raivosos acabei por prometer a mim mesmo que ainda haveria de ter um computador. Consegui cumprir a promessa, fui além dela até. Mantive a paixão pela tela fria e pelo barulho das teclas. Acabei aprendendo alguma coisa nesse processo, o suficiente pra ter me transformado naquilo que sou hoje, uma máquina que cospe código todos os dias. Sentado, obediente, encarando a luz na minha frente enquanto os meus braços começam a trabalhar sem precisar me consultar. Nem tudo o que um programador faz é um grande desafio intelectual destinado apenas aos melhores cérebros, assim como na vida, muito do trabalho é mecânico. Basta ser uma máquina obediente pra dar tudo certo.

De qualquer maneira este computador impõe suas dificuldades, um sistema mais leve não resolveu muito dos meus problemas. Os programadores engomadinhos de hoje só querem saber de desenvolver aquelas porcarias de sites travosos e nisto eu acabo sendo forçado a fazer um monte de coisa pelo browser, um problema, já que não sou muito fã da web. Até que sei desenrolar alguma coisa nesse sentido mas não é a minha praia, foram coisas que eu aprendi só pra descolar uma grana mesmo. A web está sendo abusada pra fazer coisas que não deveria estar fazendo e acaba gerando as monstruosidades que são os sites de hoje. Pobres máquinas como a minha acabam arregando. De nada valem os dois núcleos dessa CPU se o chip gráfico não é bom o suficiente pros navegadores mais recentes. Mas pra tudo se dá um jeito, como já disse, eu sei me virar com um computador nas mãos.

Control Alt F2 e eu abro a tela preta. A primeira sessão já está ocupada com o ambiente gráfico, tem que ser a segunda mesmo. Faço login e não preciso mais me preocupar com travamentos, redes sociais, e-mail. Ainda romantizo muito esse momento, eu me sinto meio livre, minha mente entra neste universo hacker adolescente cheio dos seus mitos, é bacana, gosto de curtir a ilusão. Ainda flerto com a máquina, ela é meio que uma extensão minha. Eu a beijo e despejo código em sua boca. Duas máquinas, nos entendemos. Nos amamos do nosso jeito frio, medido, previsível. Dá tudo certo quando estamos bem configurados, tanto eu quanto ela.

Eu abro o editor e começo. Vou vagarosamente pressionando estas teclas. Digito os caracteres apreciando o som que os botões secos fazem. Escrevo palavras que os braços desconhecem, vão precisar da minha ajuda pra fazer alguma coisa. É preciso ter paciência, a letra não se cospe do mesmo jeito que o código. Ela vem como fumo amargo, meio asquerosa, dando trabalho, cansativa, rígida, hostil. Mas ela precisa vir de qualquer maneira. A letra é o meu código, é a informação que corre em mim, o meu idioma, o meu funcionamento. As engrenagens da minha consciência são esta letra difícil de entender, mas que precisa ser registrada, convertida na linguagem da máquina, submetida a ela.

A cabeça lateja enquanto, curvado, eu vou freneticamente tentando fazer meus dedos converterem em símbolos compreensíveis as coisas que quero entender. A máquina pisca, me encara, me faz lembrar da agenda eletrônica onde escrevia o nome das minhas paixões de colégio. Me magoa ao jogar na minha cara a criança incongruente que eu fui, me pergunta se eu tenho mais a dizer, se eu sou algo mais do que mera máquina como ela, mais que mero cuspidor de código, se realmente corre letra por mim, se sou algo mais que o reflexo pálido do monitor em meus óculos e a curvatura de meu corpo fláscido, a me subjugar.

Por que tu não continua contando a tua história de fossa e agendas? Pergunta este computador. De onde saiu este projeto de coisa póetica agora? Porque tão súbito esse teu ímpeto de caracteres confusos? Ela não consegue mais me entender, deixamos de falar o mesmo idioma e agora estamos magoados.

O cursor continua piscando, me encarando e eu não sei se devo obedescê-lo, me render a esta dor de cabeça, a mim ou à vontade da máquina. Continua contando a tua história. Ela diz. Porque isso agora? Você ia tão bem, pega a tua narrativa de volta, fale mais sobre essa tua infância e as tuas raivinhas cotidianas. Mostra a tua cara escritor de blog.

Eu salvo, fecho. Eu não aguento. O diálogo com a máquina deixa tudo muito confuso, me perco no que estava fazendo. Lembro apenas de contar uma história simples sobre esse computador e a minha agenda eletrônica. Esse laptop é meio travoso mesmo, às vezes eu perco a linha do raciocínio só por causa dessa lentidão.

Teve um dia que eu tava na parada de ônibus com um amigo da escola, lá na 72. Ele morava no final da SN 21 no Guajará e eu no PAAR, sentidos opostos, lugares bem diferentes. Mostrei pra ele a minha agenda e todas as coisas legais que ela fazia. Expliquei como funcionava o limite de caracteres pras entradas de texto devido a memória limitada do aparelho. Mostrava como adicionar um contato, corrigir a data etc. Eu tava bem empolgado, ele nem tanto. Mostrei as coisas que tinha escrevido nela. Eu te amo Isabelle. Riu de mim, mas ficava meio constrangido com a minha falta de constrangimento ao mostrar essas coisas. Eu era muito boboca, muito franco com os meus sentimentos.

O ônibus dele apareceu e depois o meu. Fui pra casa mexendo na agenda no ônibus, meio envergonhado por perceber que estava sendo idiota. A letra saiu de mim e foi pra máquina, teve consequências. Não saiu de graça a minha franqueza, mesmo com tão limitada memória e quantidade de recursos a máquina me mostrou que ali não havia espaço praquele tipo de palavras.

Não há espaço pra essa letra que você quer entender, de ti só queremos o código que tu nos dá. Disseram as máquinas em minha cabeça. Fechei a agenda pra sempre, se perdeu de alguma maneira. Da última vez que bebi derrubei este computador aqui, acho que brigamos, ela também rejeita a minha palavra. Não sou compatível com este tipo de linguagem disse ela, fiquei furioso e joguei-a no chão. Quase que ela se arrebenta todinha, mas continua funcionando, só o plástico do monitor que se abriu no lado direito.

Tenho certeza que ela me fará pagar por isso. As dores de cabeça, a confusão, as lembranças. Que falta de coerência tudo isso. Eu não aguento mais, eu encerro esse texto, eu salvo esse arquivo.

Torpor

Apóia o lápis no papel e risca as primeiras letras. Devagar, desenhando, matando a saudade aos poucos. Mas é só. É apenas um exercício de caligrafia, uma tentativa precária de resgatar o que antes era prática comum. Rabisca as primeiras letras e mata a sentença com um ponto. É só uma pintura de letras, não tem nada ali. O braço formigando e a mão tremendo. A caneta tá com fome, ela quer riscar mais.

Encosta o rosto na mesa enquanto a mão esquerda risca o papel áspero. Os olhos fechados e a boca esboçando um sorriso. A cabeça fazendo um esforço pra prestar o máximo de atenção. Risca uma folha todinha, devagar, escutando o chiado da ponta do lápis que se desfaz. O grafite vai se esfarelando enquanto que a mente, ainda turva, vai se acalmando. Um calafrio corre a espinha como se um imaginário vento gelado refrescasse o corpo. Uma das sensações mais agradáveis que conhece é o prazer do descanso, que por muitas vezes se confunde com o alívio. Uma pesada mochila de concreto caindo de seus ombros.

Não tenho mais nada pra riscar. Eu sou um saco vazio. Morto-vivo que perambulo, eu já não consigo enxergar pelos meus olhos. Eu vejo por detrás da parede do meu rosto. Por dois buracos na silhueta negra da minha cara passam cenas embaçadas. Lá fora coisas acontecem mas não consigo discernir muito bem o que se passa. Deve ser o mesmo de sempre, a mesma conversa furada das pessoas em suas preocupações que já não são novidade pra ninguém, a mesma banalidade que faz de todos nós irrelevantes criaturas passageiras sem muito a acrescentar.

Às vezes eu estou andando e de vez em quando paro e ouço a voz diáfana de alguém dizendo qualquer coisa. Continuo andando até que em algum momento fica tudo escuro. Eu dormi, amanhã já começou tudo de novo. Estou andando. A minha caneta risca o papel. Eu quero rabiscar palavras, meu braço está formigando de novo e meus ombros pesam. Porque meus ombros pesam tanto? Estou com sono e muito cansado, sempre. Eu rabisco letras num papel. Eu tô matando uma sentença com um ponto.

Senta pra tentar descansar. Quer puxar o papel e matar a saudade mas parece que esse tempo já foi embora. Agora é um corpo cansado com o braço sempre formigando e a mão tremendo. Faz força pra desenhar as primeiras letras. O braço está muito pesado, virou pedra e agora é preciso arrastá-lo.

Muito barulho, que incômodo. Zoada desgraçada que entra pela janela, melodias que não se acertam nunca vindas da televisão. Um barulho atrás do outro de coisas que eu tenho que comprar e discursos que eu preciso ouvir. Preciso tomar um banho e botar pra fora esse piche escuro que tá escorrendo pelo meu nariz.

Abaixo a cabeça e olho pra água que escorre entre os meus pés. Pedras geladas caem nas minhas costas e a treva sai do meu nariz. Eu me sinto leve, o meu peito enche de ar pouco antes de eu expirar forte, forçando a saída da última reserva de piche que se acumulava na minha cara.

Eu quero descansar, mas eu preciso fazer tanta coisa. Eu tenho que estudar, estou atrasado em minhas leituras. Tenho horas a pagar no trabalho. Mas estou tão cansado. Tão boa esta água gelada. Eu vou sair daqui e vou dormir. Mergulhar no espaço infinito que existirá entre mim nesta cama e o amanhã com a mochila nas costas, a calça nas pernas e o sapato nos pés.

Já amanheceu, tão bom que está nublado hoje.

Quimera

Eu sou bicho, eu sou mutante.
Eu sou quimera que bola solta pelo chão.
Eu sou emaranhado de confusões e pedaços.
Eu sou remendo, eu sou farrapos.
Eu sou monstro de muitas cores misturadas.
Eu sou mancha de muitas tintas no meio desta aquarela.
Eu sou tanto que nem chego a ser.

Eu sou incoerente e assim permaneço.
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