Torpor

Apóia o lápis no papel e risca as primeiras letras. Devagar, desenhando, matando a saudade aos poucos. Mas é só. É apenas um exercício de caligrafia, uma tentativa precária de resgatar o que antes era prática comum. Rabisca as primeiras letras e mata a sentença com um ponto. É só uma pintura de letras, não tem nada ali. O braço formigando e a mão tremendo. A caneta tá com fome, ela quer riscar mais.

Encosta o rosto na mesa enquanto a mão esquerda risca o papel áspero. Os olhos fechados e a boca esboçando um sorriso. A cabeça fazendo um esforço pra prestar o máximo de atenção. Risca uma folha todinha, devagar, escutando o chiado da ponta do lápis que se desfaz. O grafite vai se esfarelando enquanto que a mente, ainda turva, vai se acalmando. Um calafrio corre a espinha como se um imaginário vento gelado refrescasse o corpo. Uma das sensações mais agradáveis que conhece é o prazer do descanso, que por muitas vezes se confunde com o alívio. Uma pesada mochila de concreto caindo de seus ombros.

Não tenho mais nada pra riscar. Eu sou um saco vazio. Morto-vivo que perambulo, eu já não consigo enxergar pelos meus olhos. Eu vejo por detrás da parede do meu rosto. Por dois buracos na silhueta negra da minha cara passam cenas embaçadas. Lá fora coisas acontecem mas não consigo discernir muito bem o que se passa. Deve ser o mesmo de sempre, a mesma conversa furada das pessoas em suas preocupações que já não são novidade pra ninguém, a mesma banalidade que faz de todos nós irrelevantes criaturas passageiras sem muito a acrescentar.

Às vezes eu estou andando e de vez em quando paro e ouço a voz diáfana de alguém dizendo qualquer coisa. Continuo andando até que em algum momento fica tudo escuro. Eu dormi, amanhã já começou tudo de novo. Estou andando. A minha caneta risca o papel. Eu quero rabiscar palavras, meu braço está formigando de novo e meus ombros pesam. Porque meus ombros pesam tanto? Estou com sono e muito cansado, sempre. Eu rabisco letras num papel. Eu tô matando uma sentença com um ponto.

Senta pra tentar descansar. Quer puxar o papel e matar a saudade mas parece que esse tempo já foi embora. Agora é um corpo cansado com o braço sempre formigando e a mão tremendo. Faz força pra desenhar as primeiras letras. O braço está muito pesado, virou pedra e agora é preciso arrastá-lo.

Muito barulho, que incômodo. Zoada desgraçada que entra pela janela, melodias que não se acertam nunca vindas da televisão. Um barulho atrás do outro de coisas que eu tenho que comprar e discursos que eu preciso ouvir. Preciso tomar um banho e botar pra fora esse piche escuro que tá escorrendo pelo meu nariz.

Abaixo a cabeça e olho pra água que escorre entre os meus pés. Pedras geladas caem nas minhas costas e a treva sai do meu nariz. Eu me sinto leve, o meu peito enche de ar pouco antes de eu expirar forte, forçando a saída da última reserva de piche que se acumulava na minha cara.

Eu quero descansar, mas eu preciso fazer tanta coisa. Eu tenho que estudar, estou atrasado em minhas leituras. Tenho horas a pagar no trabalho. Mas estou tão cansado. Tão boa esta água gelada. Eu vou sair daqui e vou dormir. Mergulhar no espaço infinito que existirá entre mim nesta cama e o amanhã com a mochila nas costas, a calça nas pernas e o sapato nos pés.

Já amanheceu, tão bom que está nublado hoje.
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